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Um dia no serto

Relato da Susana Berbet em sua primeira viagem missionária ao nordeste.

O dia amanheceu quente e logo estávamos na estrada. De Tomar do Geru, nos dirigíamos ao sertão, para dentro de uma seca ainda maior do que aquela que havíamos visto. A estrada parecia não ter fim.

A paisagem, inicialmente composta por coqueiros, foi aos poucos sendo substituída por árvores secas e espaçadas, animais magros e açudes quase sem água. O horizonte gradativamente tornava-se branco e sem vida. As cidades simples pelas quais passávamos para visitar o trabalho de algumas igrejas davam-me a impressão de estar em algum cenário de filme. Na estrada, em frente das casas isoladas que enxerguei, haviam pequenos túmulos para manter a memória das famílias que ali viviam.

Os contrastes me faziam estremecer por dentro e me apegar ao que eu via lá fora. Posso ainda recordar do ar seco, do cheiro de terra e de cada imagem que eu via pela janela do carro. Posso me recordar também de como meu coração se apertou quando avistei o primeiro acampamento do MST, que apresentava uma bandeira rasgada e suja tremulando em sua entrada. As casas, se é que eu posso chamá-las assim, eram compostas por galhos secos e plásticos. Ao fundo, avistei um rapaz trazendo um pote de água.

Desci do carro para tirar algumas fotos e uma mulher, dentro de uma das moradias, ficou me observando. Pensei em dizer olá, mas não o fiz. Continuei em pé, olhando o horizonte sem vida, pintado de branco e marrom. Continuamos a viagem e minha garganta estava tão seca quanto a terra. Um nó de compaixão, vergonha, impotência e tantas outras coisas me fazia ficar também um pouco sem ar. Vi mais seca, mais animais mortos, mais abandono. Vi outro acampamento, quase no acostamento, tão pobre quanto o outro. Tão triste. No fim do dia fomos nos aproximando da divisa com Alagoas. Eu, exausta fisicamente e emocionalmente, não sabia o que encontraria. Entramos em Canindé do São Francisco e então… Então fiquei sem palavras. Tão sem palavras que ainda tento reviver o momento para encontrar algum modo de manifestar aqui o que senti. Me senti sendo lavada, de dentro para fora. Senti meu corpo todo encharcado por aquela paisagem banhada pelo Velho Chico.

Aquele velho querido, velho amado, velho tão imponente e ao mesmo tempo tão acolhedor, que encheu meus olhos com tanta gratidão que eu precisei segurar para não me derramar em lágrimas. Agradeci, em silêncio, a Deus. Olhei as pessoas se banhando naquela água, naquela força. Força originária, força embrionária. Olhei e me vi sendo arrebatada por uma paz. Aquela miséria desembocando em vida. Nossa existência, caída, a caminho da redenção. Tudo tão diferente do que eu havia observado até ali. Tudo tão renascido. Senti aquele gigante como uma graça sem igual e ouvi aquele silêncio inocente das águas como um grito de vitória. A vida seguindo o leito em direção ao mar. O rio pulsando… O coração do sertão. Me distanciei do São Francisco pedindo para ficar. Fui devagar, voltando meus olhos para trás imaginando maneiras de levar o São Francisco por onde passei, buscando enxergar um pouco mais de esperança … E desejando que o sertão sofresse um pouco menos.

Tomamos o caminho de volta. Em poucos minutos aquela paisagem árida voltou a aparecer. Percorremos alguns quilômetros e desviamos o trajeto, entrando em uma estrada de terra que havia do lado da pista. De repente, no meio da seca, um campo verde e vasto apareceu. Em meio aquele chão sem cores, um tapete cheio de plantações. Estávamos no assentamento do MST de Jacaré Curitubá. Descemos do carro e fui apresentada a um homem de meia idade, que descobri ser um dos ex-líderes do movimento. Fomos recebidos muito bem, com água, frutas… Nada parecido com a miséria observada até então. Conversando, descobri que aquele território foi ocupado nos anos noventa, conquistado, e hoje cerca de 730 famílias vivem bem no local.

Descobri também que a realidade de verde surgiu apenas em 2012, quando a água chegou para o sistema de irrigação. Fiquei em pé por algum tempo olhando a plantação. Vi uma mulher passar por ela, um cavalo… Vi o passado triste de cada morador, pude enxergar cada sofrer. Pude também imaginar aquela plantação seca, aquelas pessoas sem água e vi cada conquista que os levou até aquele lugar. Então eu vi também esperança. Vi providência, o futuro… E vi amor: sincero e simples, como cada coração alí. Um dia no sertão, um dia mergulhado na Graça.

Susana Berbert

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