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O carro de Je

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“Tendo partido dali, encontrou a Jonadabe, filho de Recabe, que lhe vinha ao encontro; Jeú saudou-o e lhe perguntou: Tens tu sincero o coração para comigo, como o meu o é para contigo? Respondeu Jonadabe: Tenho. Então, se tens, dá-me a mão. Jonadabe deu-lhe a mão; e Jeú fê-lo subir consigo ao carro e lhe disse: Vem comigo e verás o meu zelo para com o Senhor. E, assim, Jeú o levou no seu carro.” (II Reis 10.15-16)

Nós, os que confessamos a fé cristã, sabemos e cremos que o Cristianismo bíblico é uma religião revelada. Desde o momento da criação, formados o homem e a mulher, Deus deu início ao processo de Sua comunicação com o homem. Depois da queda no Éden, do pecado que atingiu a todos, essa comunicação estruturou e desenvolveu a História da Salvação. Temos como doutrina do Velho Testamento e do Novo Testamento o fato de que Deus opera a nossa salvação através da Sua Palavra. Lemos em Hebreus 1.1 que Deus comunicou esta Sua Palavra aos Pais (Patriarcas) – isto é, ao povo eleito, Israel, da Antiga Aliança – pela boca dos profetas, e nos últimos tempos nos falou por meio do Seu Filho, Jesus Cristo, no qual habita toda a plenitude de Deus.

Pelos profetas, falou Deus muitas vezes e de muitas maneiras, em diversas ocasiões e isto quer dizer que os profetas sucederam-se uns aos outros e, assim, nenhum deles sozinho proclamou toda a revelação. O Velho Testamento conheceu a comunicação da Palavra por meio de locução direta, histórias, sonhos, visões e todas estas formas demonstram que a Palavra de Deus não é uma ação divina, que se coloca sobre os homens como uma força implacável, cega e fatal. Antes, executando os Seus juízos e operando a Sua salvação, Deus lida com o coração dos homens com graça e misericórdia e com ensino paciente.

Um interessante livrinho - no diminutivo para indicar o seu tamanho físico e não o seu valioso conteúdo – tem me ajudado muito nas minhas incursões aos textos do Velho Testamento. Trata-se de “O Progresso da Revelação no Antigo Testamento”, Gerard Van Groningen, Editora Cultura Cristã, 2006. Com o autor, aprendi que tudo o que está registrado no Velho Testamento pode e deve ser denominado de Revelação e que essa Revelação acontecia quando se manifestava, gradativamente, aquilo que estava no pensamento e no coração do Deus Trino, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade.

Revelação é o desvelamento do que estava escondido antes que o conteúdo da Revelação, a atividade ou o fato revelador acontecesse; Revelação se refere sempre ao que é novo, desconhecido, aquilo que não podia ser percebido, nem considerado antes que fosse revelado. Assim, podemos dimensionar o quanto seríamos ignorantes e desinformados a respeito da Pessoa de Deus, da obra redentora de Jesus Cristo, do ministério do Espírito Santo, da misteriosa ação ininterrupta da Trindade Excelsa na sustentação do universo, se não tivéssemos recebido a boa dádiva da Bíblia Sagrada, a infalível Palavra de Deus, fonte única, suficiente e verdadeira de toda a Revelação Divina.

A Revelação se deu pela livre iniciativa de Deus; veio de Deus para o homem. Sempre presente em todas as eras, ativo nos corações e mentes que e O recebem, o Espírito Santo atrai, ilumina, instrui, ensina, inspira, dá sabedoria, dá capacidade de discernimento, produz conhecimento, ânimo e alegria, prazer na leitura e meditação da Bíblia. O testemunho que temos e no qual cremos assegura que no passado, distante ou não, e no presente, homens foram e continuam sendo alvos desses dons eternos para lerem e compreenderem os textos sagrados.

Formam-se, assim, pela graça de Deus, os teólogos e líderes espirituais sérios, movidos pelo amor, que nos ajudam na busca do mais sadio conhecimento da Palavra de Deus, para que não caiamos no pecado de uma leitura ou de uma interpretação em conformidade com interesses e desejos puramente pessoais. Distraídos ou equivocados, facilmente escorregamos no desprezo pela boa teologia e caímos no apelo das heresias. Nossos dias têm sofrido uma avalanche dessas heresias, atraindo incautos em busca de “bênçãos” materiais. Para tantos e tantos, Deus não é bom pelo que Ele é, mas sim pelo que Ele poderá fazer; puro engano, pecado grosseiro.

A Bíblia Sagrada aponta para a revelação divina e, inexoravelmente, para o próprio Deus Trino. Revelação é a manifestação da presença de Deus na história humana. Mediante essa revelação, Deus concede às pessoas o privilégio de reconhecê-Lo e de identificar a Sua boa vontade e os Seus decretos. Não são tarefas fáceis; exigem dedicação, leitura e meditação prolongada e paciente dos textos sagrados. Se a Bíblia Sagrada não tivesse chegado até nós, nada saberíamos a respeito da revelação divina e, consequentemente, nada saberíamos a respeito de Deus e do Seu propósito para a nossa vida. Quem se afasta da Bíblia Sagrada acaba por afastar-se de Deus e por desenvolver ideias equivocadas sobre Ele. Deus é o que é; “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3.14). Não é o que desejamos que Ele seja. Contudo, é necessário ter sempre presente que o mistério que cerca a pessoa de Deus não foi extinto; permanece mistério e assim será até que chegue aquele dia em que O veremos face a face; “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” (Evangelho Segundo Mateus 5.8)

Concluímos que há revelação, que há propósito da parte de Deus em determinar o registro do encontro, aparentemente casual, entre Jeú e Jonadabe. Não se trata de um simples cumprimento de pessoas conhecidas, nem de um corriqueiro aperto de mãos ou de uma saudação convencional, nem de uma carona oferecida a um amigo cordial. Havia entre ambos uma afinidade religiosa, os seus nomes tinham significados semelhantes: Jeú, “Ele é Jeová” e Jonadabe, “Jeová é Generoso”. Eram “irmãos na fé.” Temiam e cultuavam o mesmo Deus. Conheciam e reverenciavam a Torá e, certamente, não ignoravam a mensagem dos primeiros profetas, principalmente, Samuel, Elias e Elizeu.

Com vínculos tão aparentes e tão significativos, é de se estranhar a pergunta confrontadora de Jeú, o rei de Israel, a Jonadabe, chefe da tribo dos Recabitas, antes de estender-lhe a mão e oferecer-lhe um lugar no seu carro. Contudo, para a empreitada que Jeú tinha em mente, era preciso certificar-se de que o que os unia era muito mais do que uma afinidade religiosa, uma amizade convencional, protocolar. Talvez algo como uma amizade espiritual, um elo de almas, um laço de corações; Sinceridade, lealdade, respeito, amor fraternal. Sentimentos de verdade! Estender a mão e dividir o mesmo carro são gestos naturais que fluem da confiança recíproca. Esse carro dividido tinha um destino de interesse comum dos seus ocupantes. As mãos estendidas se ajudavam e se fortaleciam com reciprocidade para que o carro continuasse avançando, até que chegasse ao lugar em que seria visível o zelo pela causa do Senhor, o Deus de Israel.

Concluo que temos Revelação Divina nesse pequeno texto; Sombras do Velho Testamento que se projetam e se ampliam no Novo Testamento e que definem, com uma só palavra, de altura e profundidade inalcançáveis, o relacionamento dos verdadeiros cristãos: Comunhão! Comunhão com o Corpo de Cristo, a Igreja e Comunhão com a Santíssima Trindade. Quem hoje anseia e busca essa comunhão cristã, tendo como desejo essencial do seu coração, o zelo pelo Nome do Senhor da Igreja e pela causa do Evangelho, não deixará de encontrar pelo caminho da sua peregrinação outros amigos de Jesus Cristo, aos quais desejará estender a sua mão e oferecer um lugar na sua companhia. Isso é comunhão, isso é ser cristão. Esses gestos sinceros, esse sentimento de comunhão verdadeira constroem, edificam e fortalecem a Igreja, dão harmonia ao Corpo de Cristo, mantêm o “carro” no caminho certo, na vereda plana.

Entretanto, antes desses gestos de comunhão, a pergunta é necessária: Há em você o mesmo sentimento que há em mim? Estou tão tranquilo quanto aos meus sentimentos com relação a você que não desejo nada mais que os mesmos sentimentos de você para mim. Se temos a mesma fé, se temos o mesmo Salvador, se temos o mesmo ardor pelo Evangelho, se temos o mesmo desejo de mostrar zelo pela causa do Senhor, se não nos aproximamos um do outro com objetivos de vantagens pessoais, de busca por apoio a projetos de poder, de posição de autoridade (mesmo na Igreja), de ganhos econômicos ou financeiros, em síntese, se temos comunhão cristã verdadeira, então somos afins, podemos com alegria e prazer, estender-nos as mãos e oferecermos a destra da companhia. Nessa alteridade, podemos seguir no mesmo “carro”, desfrutarmos e compartilharmos o zelo que ambos temos pelo Senhor, o nosso Deus, o nosso Redentor, o Corpo de Cristo, a Igreja; para vivermos em verdadeira comunhão, tendo “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” (Filipenses 2.5) Aleluia! Amém.