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O silncio de Deus

“Oh! Se fendesses os céus e descesses! Se os montes tremessem na Tua presença, como quando o fogo inflama os gravetos, como quando faz ferver as águas, para fazeres notório o Teu Nome aos Teus adversários, de sorte que as nações tremessem da Tua presença! Quando fizeste coisas terríveis, que não esperávamos, desceste, e os montes tremeram à Tua presença.” (Isaías 64.1-3)

Nas nossas Bíblias impressas, apenas duas páginas em branco, aparentemente vazias, separam o Velho Testamento do Novo Testamento. No entanto, entre o último capítulo da profecia de Malaquias e o primeiro capítulo do Evangelho segundo Mateus, essas duas páginas contemplam cerca de 400 anos de grande relevância e interesse para os estudiosos dos textos sagrados. Por alguns, esse tempo foi denominado de “O Período Interbíblico.” Por outros, foi chamado de “O Período de Silêncio.” São denominações que, apesar de corretas, são muito limitadas, pois indicam, apenas, a duração física de uma época.

Assim, sempre preferi juntar-me àqueles que identificam esse tempo, tão longo aos nossos olhos, como “O Período do Silêncio de Deus.” Parece-me que assim, além do tempo físico visível no calendário, fica perceptível a existência de um grande peso teológico para o qual devem convergir a atenção e o zelo dos que buscam conhecimento bíblico. Esses 400 anos foram marcados pela cessação da revelação, pelo silêncio profundo e radical em que Yahweh permaneceu com claro sinal de distanciamento do Seu povo de Israel. Um longo tempo – 400 anos – em que nenhum profeta se levantou para anunciar os oráculos de Yahweh. Silêncio, apenas silêncio... Aterrorizante silêncio.

Daquele tempo de agonia, aprendi uma triste e primeira lição prática plenamente aplicável à realidade da Igreja Cristã contemporânea, qualquer que seja a sua denominação. Eu a aprendi com um homem piedoso, religioso, integralmente comprometido com a sua fé, admirável pensador, um judeu movido pelo amor a Deus e pelo amor de Deus; trata-se do Rabino Abraham Joshua Heschel (1907 – 1972), denominado pelos seus irmãos de “o último profeta”, título que ele humildemente recusou sob a justificativa de que “isso era uma pretensão quase arrogante e que ele orava para ser um digno descendente dos profetas e, apenas, isso”.

A lição a que me refiro ele a publicou quando pensava sobre a crise religiosa do seu tempo: “Seria mais honesto culpar a religião pelas suas próprias derrotas. A religião declinou não porque foi contestada, e sim porque se tornou irrelevante, monótona, insípida e opressiva. Quando a fé é completamente substituída pela crença, o fervor religioso pela disciplina, o amor pela rotina; quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado, quando a fé se transforma em algo que é simplesmente transmitido de geração em geração, em vez de ser uma fonte viva, e quando a religião fala somente em nome da autoridade, não com a voz da compaixão – então a sua mensagem deixa de ter sentido.”

Nas duas páginas em branco, uma primeira percepção de peso teológico pode ser observada: até o último capítulo de Malaquias, tudo não passava de “sombras.” A revelação era como uma luz meio escondida, nublada. Assim aprendemos no texto sagrado: “Ora, visto que a Lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas...” (Hebreus 10.1) Porém, aprendemos também que a partir do primeiro capítulo do Evangelho segundo Mateus, a nuvem se dissipa, a sombra se desfaz, o que era nublado se mostra com clareza, a luz brilha, a “Estrela da Manhã” surge e resplandece: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho...Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do Seu Ser...”(Hebreus 1.1-3) Os “Últimos Dias”, estes em que vivemos e que estão biblicamente demarcados, com o seu início no nascimento de Jesus, na encarnação do Verbo Eterno, na Sua primeira vinda e com o seu fim, no retorno do Redentor, a segunda vinda para buscar a Sua Igreja.

No silêncio desesperador desses 400 anos, o Deus de Israel deixou que os esforços dos homens para dar solução aos seus problemas espirituais falhassem por inteiro, que o poder material deixasse as almas enfadadas, que a imoralidade religiosa e os desvios decorrentes destruíssem a esperança até dos mais piedosos e fervorosos. Tempo em que a corrupção campeava e produzia inimaginável depravação; assim Deus mostrava ao homem a inutilidade dos sistemas e das instituições humanas, quando tais sistemas e instituições não levam em conta a existência de um único e poderoso Deus e dos Seus santos preceitos. Tempos difíceis, sinais da noite escura da alma de um povo escolhido para ser luz que alumia! E Deus, em silêncio...em aterrorizante silêncio!

As Igrejas cristãs, em sua maioria, não dão maior atenção ao peso da mensagem transmitida por meio do silêncio de Deus. O tema, raramente, tem espaço nos púlpitos ou nas classes de estudos da Escola Dominical; igual desinteresse é perceptível entre os teólogos escritores. Se não estou equivocado ou desatualizado, o único livro sobre o assunto, publicado em português, é “O Período Interbíblico” - Pastor Enéas Tognini - (Editora Palavra da Cruz – 1951). Além desse pequeno, mas utilíssimo livro, informações gerais podem ser obtidas nas obras de Flávio Josefo, nascido em Jerusalém no ano 37 a.C., e nos Apócrifos inclusos na “Bíblia de Jerusalém” (Edições Paulinas), com destaque para “Primeiro Macabeus” e “Segundo Macabeus”.

O texto sagrado já transcrito - Hebreus 1.1-3 - afirma que, outrora, ou seja, durante o desenrolar do Velho Testamento, Deus falara e falara muito, muitas vezes. Foram séculos de história e de intensa falação; Deus se comunicava com o Seu povo constantemente, quase que ininterruptamente e o fazia de formas as mais variadas; visões, revelações angelicais, palavras e grandes eventos proféticos, manifestações espirituais, milagres, intervenções diretas na natureza e nas guerras declaradas contra Israel, bênçãos e maldições, proteção miraculosa no deserto e pragas contra o Egito. Esses eram os meios pelos quais Yahweh Se dava a conhecer e Se mantinha numa comunhão intensa e de acentuada frequência com os Seus escolhidos. Israel se sentia seguro sendo objeto dos cuidados e da proteção de Deus. Deus sempre presente e sempre se comunicando, amando e disciplinando para que os Seus amados não se desviassem em descaminhos espirituais de demasiado perigo.

Assim habituado, foi uma dura experiência para o povo perceber que, de repente, Deus Se afastara da convivência amável e protetora. Os anos se sucediam, os séculos ficavam para trás e Deus permanecia distante. A noite do silêncio se prolongava e o povo sofria em aparente total desamparo; a noite durou 400 anos! Entretanto, nos bastidores da História da Salvação, nos altos céus, Deus agia para fazer cumprir a última profecia do Velho Testamento: “Mas para vós outros que temeis o meu Nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezerros soltos da estrebaria” (Malaquias 4.2). A esperança na chegada do Messias, o Ungido de Yahweh, se mantinha viva e nessa esperança Israel alcançava consolo e amparo. O tempo do Velho Testamento passara, o dia em que nasceria o Sol da justiça era aguardado com confiança e fé.

Embora não tão extensa e intensa, uma outra experiência de distanciamento e de silêncio de Deus já havia sido vivida por Israel. É o que está registrado nos capítulos 63 e 64 da profecia de Isaías. Ocorrera um rompimento desastroso das relações de Deus com o Seu povo e Deus escondeu a Sua face, negando-Se ao trato pessoal. Esse distanciamento ultrapassou o limite mais trágico quando Deus entregou Israel ao poder do seu pior inimigo: o seu próprio pecado! “Ó Senhor, por que nos fazes desviar dos Teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que Te não temamos? Volta, por amor dos Teus servos e das tribos da Tua herança” (Isaías 63.17). Israel distanciava-se na sua vã maneira de viver e Deus se calava e se escondia; a indiferença do Pai para com os Seus filhos era a dor mais difícil de suportar. Ninguém conseguia compreender o silêncio de Deus, pois o pecado cega e elimina a capacidade de discernir.

Nós os membros das Igrejas Cristãs, inclusive e principalmente da Igreja à qual pertenço de denominação Presbiteriana, estamos vivendo num tempo de tristes notícias, de afastamento da comunhão dos salvos, da perda da sensibilidade natural e bíblica por parte daqueles que simplesmente vão ao culto por hábito e não desfrutam do encontro real e misterioso de Cristo com a Igreja; de lideranças espiritualmente frágeis e, por isso mesmo, arrogantes e manipuladoras dos distraídos. Adoradores que somente se lembram da Bíblia na hora de ir para o culto dominical e que, muitas vezes, a carregam escondida nos seu celulares, uma maldição do nosso tempo! A experiência e o desejo de perceber o próprio corpo como Templo do Espírito Santo e desfrutar dessa realidade envolta de santo mistério foram apagados. Talvez pelo excesso de temor quanto a desvios doutrinários (?). Fica a sensação de que a Igreja foi afastada do principal, pelo medo (?) do acessório.

Não devemos descartar a hipótese de seguir o exemplo do profeta Isaías no seu lamento, que se transforma em súplica e que é proporcional à intensa aflição do povo. Ele, o profeta, não deseja nada menos que Deus abra uma fenda nos céus e desça para intervir a favor dos Seus escolhidos e ponha um ponto final nas angústias de cada um. Não importa o pavor que virá quando as montanhas tremerem; não importa a irresistível manifestação do poder de Yahweh, que se mostrará como o fogo que incendeia e consome gravetos, que faz a água ferver, borbulhar, de maneira ruidosa e danosa! Coisas tremendas que excediam a capacidade de compreensão dos mais piedosos! A manifestação de Deus, em toda e qualquer circunstância, será sempre melhor do que o Seu silêncio, de aparente indiferença e distanciamento.

“Oh! Se fendesses os céus e descesses...” e viesses ao encontro da Tua sofrida e sofredora Igreja para livrá-la das aflições, angústias, gemidos, incompreensões e dissenções destes “Últimos Dias” de peregrinação rumo à Cidade de Deus! Amém.