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O ltimo voo do corvo

“Ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela que fizera na arca e soltou um corvo, o qual tendo saído, ia e voltava, até que se secaram as águas de sobre a terra.” (Gênesis 8.6-7) 

Já faz muitos anos desde que cursei o primário numa escola pública, naquele tempo de ótima qualidade; depois veio o período de admissão ao ginásio e o curso ginasial e, por fim, o curso científico, antes da guerra do vestibular... Sem energia elétrica, sem rádio, sem televisão - internet nem em sonho!; os livros eram a única fonte de informação, origem, portanto, do apego à leitura e do hábito de frequentar regularmente as bibliotecas públicas, que os estudantes adquiriam gradativamente, movidos pela necessidade. Ler livros, jornais, revistas era a sugestão repetitiva que ouvíamos nos grupos escolares. Época das enciclopédias, coleções de livros imensos, nos quais era possível encontrar praticamente tudo. Era como uma internet impressa e era feliz quem podia comprá-las.

Com pouco mais de seis anos, fui alfabetizado por dona Suely; não tinha o título de professora; era mulher gentil, educadíssima, casa simples, pobre, (éramos todos muito pobres), cuidada com admirável esmero; de poucos recursos pedagógicos, ela me premiava com pés-de-moleque e cocadas, que ela mesma fazia no fogão de lenha, enquanto me ensinava. Bons tempos! Como diz a canção “Eu era feliz e não sabia.” Li então o meu primeiro livro, presente do meu pai: “A Caminho da Cidade Feliz”, uma história de cunho moral, cujos protagonistas eram um adolescente de nome José Sem Nada e um avô bondoso chamado Mário, cheio de histórias para contar. A que mais me atraía era a da luta que tivera com um leão de circo e que o deixara sem o braço esquerdo! Era fascinante ter um avô sem um braço em consequência de uma luta com um leão!

Os anos passaram e os hábitos da modernidade atropelaram métodos e formas de antigamente. A internet tem tudo pronto, basta um clic e as informações desejadas se disponibilizam na tela; horas e horas de estudo foram deixadas de lado; os livros ficam fechados e esquecidos; é mais fácil copiar e, ainda que seja vergonhoso, o plágio é adotado em muitas circunstâncias com ou sem honestidade intelectual. Eu gosto muito de livros, das capas, dos títulos, das páginas, da capacidade imaginativa dos grandes escritores, dos enredos complexos, da inexistência do óbvio. Não compreendo e tenho rejeição ao modernismo de ir à Igreja, aos cultos dominicais, levando a Bíblia Sagrada escondida dentro de um celular. Foi Dwight Lyman Moody (1837 - 1899) o grande pregador do Evangelho, que fixou a lição: “Quem carrega uma Bíblia nas mãos, com reverência, prega um sermão silencioso do tamanho da sua caminhada.” Lição perpétua.

Hoje, no entanto, recorri à internet. Queria conhecer um pouco sobre os corvos, sua natureza, seu habitat, seus hábitos alimentares, tendo como alvo exclusivo a busca do entendimento sobre as razões que levaram Noé, dentre tantas opções, a soltar um corvo quando percebeu que a chuva havia cessado e que, talvez, alguns montes já estivessem secos. A janela da arca aberta e o primeiro voo do corvo, foram, também o primeiro vislumbre da salvação do lado de fora, onde, até então, só havia condenação. Noé é o nosso primeiro modelo de fé e de esperança no Deus Todo Poderoso, que faz chover e faz cessar a chuva, de acordo com a Sua inquestionável, santa e perfeita vontade.

O corvo é a primeira ave especificamente citada na Bíblia. Existe em todas as regiões da terra, adapta-se facilmente a qualquer meio. Em algumas regiões, é tido como portador de maus presságios e, como tal, encarna o mal. Crendices fantasiosas. Na Torre de Londres, na travessia do rio Tâmisa, os corvos passeiam tranqüilos entre os turistas e desconfio que seria possível alimentá-los nas mãos, não fosse a vigilância severa da polícia inglesa, sempre presente. Dizem que a monarquia tem especial interesse na permanência e no bom trato dos corvos na Torre, isto porque, diz a lenda, se os corvos forem embora espontaneamente, a decadência da dinastia será rápida e irreversível. Rainhas, príncipes e princesas conhecerão o fim inexorável do seu reinado. Bobagem.

Aprender sobre a alimentação da ave foi relevante para o meu entendimento; alimenta-se, praticamente, de tudo, sementes, grãos, raízes, folhagens, frutas, ovos saudáveis ou estragados, tanto faz. Essa diversidade facilitou a tarefa de Noé, sempre ocupado em manter os animais, sob sua guarda, alimentados e calmos. O corvo é caracterizado, também, como necrófago. Sua preferência alimentar se inclina para cadáveres de animais ou de humanos, em avançado estágio de decomposição. Aqui, começamos a ver clareza e coerência no texto bíblico e, por extensão, na escolha que Noé fez ao soltar, em primeiro lugar, um corvo. Bendita Palavra de Deus!

Quarenta dias após a cessação das chuvas, Noé presumiu que a terra estivesse seca, pelo menos em seus pontos mais elevados. O corvo poderia indicar-lhe com segurança quais eram as condições do lado de fora da arca. Libertada, a ave ia e voltava, sinal claro de que, nem mesmo para um corvo, existiam condições de sobrevivência na terra devastada pelo juízo de Deus; as águas, ainda, cobriam a terra. Uma semana depois, o corvo se pôs mais uma vez na janela, bateu asas e deu início ao seu último voo a partir da arca. Não voltou.

A realidade do lado de fora da arca era assustadora. As águas baixaram e por toda parte a terra estava coberta de milhares de cadáveres; uma geração inteira morrera nas águas do dilúvio. Todos os animais da terra e dos ares estavam mortos; decomposição, putrefação, desolação e silêncio no vasto cemitério de cadáveres insepultos. A terra já não refletia a alegria e a constatação de Deus imediatamente após o milagre da criação: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Gênesis 1.31). Agora, as marcas do julgamento e do castigo divinos eram terríveis, e Noé e a sua família veriam estas marcas assim que desembarcassem.

Enquanto isso, o corvo se banqueteava. Necrófago, tinha alimentação em abundância nunca vista e nem precisava procurá-la. Seria muito estranho e contra a sua natureza que voltasse à arca. Noé pressentiu então que a conseqüência do juízo de Deus seria, para os seus olhos, uma cena de horror. Esperou mais sete dias e, então, soltou uma pomba que foi e voltou, por não ter encontrado um lugar seco para pousar. Pombas não pousam sobre cadáveres. Ainda não chegara a hora de Noé e a sua família desembarcarem. Mais sete dias e mais um voo de ida e mais um voo de volta. Mais sete dias, mais um voo de ida e, então, a pomba retornou com um ramo novo de oliveira no bico. Para Noé, um sinal de que a vida recomeçava na terra devastada. Mais sete dias, mais um voo e, desta feita, a pomba não mais retornou. As água haviam secado; a terra voltou a ser habitável.

Deus ordenou: “Então disse Deus a Noé: Sai da arca, e, contigo, tua mulher, e teus filhos, e as mulheres de teus filhos. Os animais que estão contigo, de toda carne, tanto aves como gado, e todo réptil que rasteja sobre a terra, faze sair a todos, para que povoem a terra, sejam fecundos e nela se multipliquem.” (Gênesis 8.15-17). Diante dos olhos da família de Noé foi descortinado o cenário de horror, o resultado do juízo de Deus, da manifestação da justiça divina, a revelação da Santidade do Pai, que não admite, em nenhuma hipótese, a comunhão com o pecado.

O pouco que podemos conhecer sobre a Santidade de Deus, possibilita-nos imaginar que o que a família de Noé viu ao desembarcar, por mais horroroso que tenha sido, não era comparável com o que os olhos de Deus viam desde a queda no Éden. Antes mesmo do dilúvio, a terra estava desfigurada e deteriorada: “Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração; então, Se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso Lhe pesou no coração.” (Gênesis 6. 5-6). Esse pequeno texto do Gênesis foi construído com acentuada linguagem antropomórfica e é necessário atentar para este detalhe. O dilúvio, o juízo de Deus, o castigo enviado do céu, foram exigências da Santidade de Deus, o Pai, pois Deus é Santo, Santo, Santo.

Para as pessoas que têm sensibilidade espiritual e que, à luz da Bíblia Sagrada, são capazes de ver, ouvir e discernir os sinais dos tempos, para estas pessoas, Deus está a revelar o que está acontecendo de mau nestes dias que correm e, também, o que acontecerá nos próximos que virão. Como afirma o profeta de Deus, “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.” (Jeremias 6. 14) Parece que um novo “dilúvio” nos sufoca; “dilúvio” de corrupção, de propinas, de mentiras, de roubalheiras, de estratégias malignas, de calamidade econômica, de desvios financeiros, de empresários com aparência de honestidade que se ajuntam com governantes inescrupulosos para formarem as quadrilhas, que se enriquecem roubando a casa, a comida, a merenda escolar, as ambulâncias, os remédios de um povo sofrido, distraído e que geme.

Deus tudo vê e o salmista nos fez cientes desta visão completa e contínua: “Diante de Ti puseste as nossas iniquidades e, sob a luz do Teu rosto, os nossos pecados ocultos.” (Salmos 90. 8). O Brasil é hoje e continuará sendo por mais tempo, uma nação debaixo da ira de Deus. E os corvos que saem dos palácios voam e pousam sobre os cadáveres insepultos, e se fartam, e se alegram, e se corrompem mais e mais.

A pomba não pousa e não se alimenta de cadáveres e, rapidamente, retorna anunciando o tempo da salvação. Assim como o ramo novo da oliveira no bico da pomba indica o início de uma nova vida, o Cristianismo Bíblico, o genuíno Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, continua hoje a apontar para o Novo e Vivo Caminho que conduz à Salvação, que conduz a Deus, que restaura e renova a terra, que livra o cristão da ira divina, a “Ira Vindoura” que se aproxima. São felizes os que permanecem neste Caminho, os que se comparam à pomba e que aguardam o Novo Céu e a Nova Terra. Os corvos já receberam a sua recompensa. Amém.