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A morte da morte

“Havendo eles passado, Elias disse a Elizeu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes que seja tomado de ti. Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.” (II Reis 2.9a –<

 Aprendi com C. S. Lewis (1898 - 1963) que a morte é um acontecimento perene, que a carnificina da guerra, por mais sangrenta, não aumenta o número de mortes; que a morte é total em cada geração. Parecem observações óbvias demais; contudo, eu não fui capaz de chegar sozinho a essas conclusões e refletir sobre elas. O notável pensador e escritor cristão discorre sobre o tema com serenidade, confiança e inabalável esperança evangélica. Na sua admirável biografia (A Vida de C. S. Lewis – Do Ateísmo Às Terras de Nárnia - Alister McGrath – Editora Mundo Cristão – 2013) consta o relato do tempo de sua doença terminal e morte.

Levado ao hospital em condições bem adversas, com desgastante fadiga, sofreu um ataque cardíaco e entrou em coma. Passou a ser mantido vivo por meio de instrumentos. Seu amigo mais chegado, conhecedor da sua alma, considerou que, se pudesse decidir, C. S. Lewis não hesitaria em receber a extrema unção, prática usual na Igreja Anglicana. E isso foi feito. Todavia, para grande surpresa dos médicos, o paciente despertou do coma. Pouco depois, C. S. Lewis reuniu seus amigos e lhes disse que “gostaria de ter morrido durante o coma” que “a experiência pela qual passou foi muito suave e era uma pena que depois de ter chegado à Porta tão facilmente, não ter tido a permissão de entrar. Como Lázaro, ele teria de morrer outra vez.” Palavras de um crente que viu o céu. Transcrevo um pequeno parágrafo da última carta que ele escreveu ao especial amigo, conforme consta na sua biografia:

“Embora eu não me sinta de modo algum infeliz, não posso deixar de sentir que foi uma pena eu ter revivido em julho. Quero dizer, depois de ter deslizado de modo tão indolor chegando até a Porta, parece duro vê-la sendo fechada no meu nariz e saber que todo o processo deve algum dia ser novamente vivido, e talvez de modo muito menos agradável! Pobre Lázaro! Mas Deus sabe o que faz!” Escreveu ainda: “Somos uma semente pacientemente aguardando na terra; esperando surgir como uma flor na hora propícia do Jardineiro, subindo no mundo real, o real despertar.”

De maneira diversa, o dramaturgo, romancista, prêmio Nobel de literatura e pensador irlandês, George Bernard Shaw (1856 – 1950), irônico, sarcástico como era, mesmo tratando de um assunto tão delicado, disparou: “As estatísticas sobre a morte são muito impressionantes. A cada pessoa, uma morre.”

A serenidade dos salvos, como a expressou C. S. Lewis quando chegou à Porta do céu, assim como o sarcasmo de George Bernard Shaw revelam, cada um à sua maneira, uma realidade patente, já determinada na Bíblia Sagrada e, portanto, irremediável: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim, também, Cristo tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que O aguardam para a salvação.” (Hebreus 9.27-28). Sabemos que morreremos. Todos nós convivemos com a fatalidade assustadora da morte. É razoável pensarmos, portanto, que a morte não é uma realidade com a qual teremos um encontro pontual no fim da jornada. Ao contrário, ela nos acompanha durante toda a nossa existência.

Para aqueles, principalmente cristãos, que desejam entender algo maior sobre esse tema, a compreensão do enigma da morte passa pela orientação da Bíblia Sagrada. De início, aprendemos na Palavra de Deus que a morte é um inimigo, tanto de Deus quanto do homem. Essa verdade assusta; cotidianamente, temos esse inimigo à espreita. O rei Davi expressou assim essa proximidade incômoda: “Não saiba isto Jônatas, para que não se entristeça. Tão certo como vive o SENHOR, e tu vives, Jônatas, apenas há um passo entre mim e a morte.” (I Samuel 20. 3b)

Trata-se de um inimigo tão feroz que a Santa Palavra de Deus nos ensina que ele será o último inimigo a ser derrotado pelo Senhor da vida: “Porque convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte.” (I Coríntios 15.25-26). Enquanto essa destruição definitiva não acontece, sabemos que chegará a hora em que a morte se intrometerá nas nossas vidas bem planejadas e mudará as coisas de maneira absoluta. Sonhos, projetos, desejos, vontades, planos vinculados a esta vida física, todos estão sujeitos à total destruição pela indesejada visita da morte. Chegará o momento em que somente nos restará Deus e, então, saberemos, na prática, que “Com Deus ninguém convive se não for totalmente de Deus.” (Leonardo Boff).

No Novo Testamento, aprendemos que a morte deve ser entendida como manifestação do juízo divino contra o pecado do homem. Na universalidade da morte, é reconhecida a universalidade da culpa do homem, bem como a absoluta necessidade da sua redenção. Para realizar essa redenção, o Verbo Se fez carne, foi crucificado e, ao terceiro dia, ressuscitou. O Redentor vive! Aleluia! E “porque Ele vive, posso crer no amanhã.” Apesar de saber que, antes do amanhã chegar, poderei ser assaltado pela minha própria morte ou pelo terrível sofrimento, quase desespero, da morte de um ente querido.

O cristão pode crer no amanhã da ressurreição. A morte foi vencida na vinda de Jesus ao mundo, quando ressuscitou, e será destruída definitivamente na Sua Segunda Vinda, na consumação do Reino de Deus. Para os incrédulos, a notícia da ressurreição de Jesus soa como utopia. Mas, para os cristãos agraciados com o milagre da fé na suficiência do sacrifício da cruz e na ressurreição do Filho de Deus, Jesus, o Redentor, realizou a utopia! E assim, promoveu, em plenitude, a redenção do homem crente, concedendo-lhe, também, a garantia da própria ressurreição. “Porque Ele vive, posso crer no amanhã.”

No seu extraordinário livro “Vida Para Além da Morte” (Editora Vozes, 1996), o teólogo Leonardo Boff (1938 -) menciona a trajetória humana sob a perspectiva de duas curvas existenciais: Na “curva” biológica, o homem nasce, cresce, se desenvolve, amadurece, envelhece e morre. É a realidade de uma perda progressiva e irreversível do vigor, da energia; é a vida que vai se desgastando a cada momento, “morrendo em prestações.”

O inverso é a “curva” pessoal. Inicia pequena como um germe e vai crescendo indefinidamente; o homem começa a crescer interiormente, desabrocha a inteligência, organiza a vontade, atravessa horizontes, abre o coração para o encontro com o outro, supera barreiras, vence desafios, corre para o alvo. A vida biológica vai se consumindo dia a dia, mas dentro dela vai se moldando a vida pessoal que tende a desenvolver-se mais e mais. É assim que o teólogo percebe o ensino do Apóstolo Paulo: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia.” (II Coríntios 4.16)

No final da vida terrestre, o homem deixa atrás de si um cadáver, semelhante ao casulo fétido que possibilitou o emergir da bela borboleta, agora livre no horizonte infinito de Deus. Qual o destino do homem salvo? A fé cristã responde que o destino é a vida ressuscitada, a plena comunhão com o Salvador, com os outros salvos e com o Cosmos inteiro. Quanto mais o corpo exterior se corrompe e se desgasta, mais e mais o homem interior se renova para o Dia de Cristo, para o dia da gloriosa ressurreição, para o dia em que a morte, o último inimigo de Deus e do homem, será definitivamente destruída e apagada de todas as lembranças. “Porque Ele vive, posso crer no amanhã.”

Quando com fé nos achegamos ao ensino da Bíblia sobre a morte e nos deparamos com o impenetrável mistério da ressurreição do nosso corpo, não há como disfarçar a nossa perplexidade, a nossa estupefação; não sabemos como Deus fará isto acontecer, mas sabemos e cremos que Ele fará, pois nos prometeu. Certamente, perplexidade maior e estupefação mais intensa acometeram o Profeta Elizeu, quando os seus olhos arregalados viram o carro e os cavalos de fogo destruindo o rito da morte física e separando o Profeta Elias para ser levado vivo ao céu, o lugar da absoluta realização humana. O Deus de Elias e de Elizeu, o nosso Deus, aniquilou o poder da morte e resgatou para Si o Seu filho amado. Para Elias, a morte morreu naquele glorioso dia.

Se cremos na realidade da ressurreição, cremos também que, assim como Elias, estaremos no céu um dia. Já passamos da morte para a vida e essa fé antecipa o nosso consolo, conforto e amparo, afastando o medo da morte física. “Cristo realizou aquilo que para nós é ainda esperança. Não vemos o que esperamos. Mas somos o corpo daquela Cabeça na qual se concretizou aquilo que esperamos.” (Santo Agostinho). Amém.