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E os bois tropearam..

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor. Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte.” Pv 16.1 e 16.25 

Lembro-me de um provérbio sem, no entanto, lembrar-me da sua origem: “pela perda de um cravo, perdeu-se a ferradura/ Pela perda da ferradura, perdeu-se o cavalo/ Pela perda do cavalo, perdeu-se o cavaleiro/ Pela perda do cavaleiro, perdeu-se a batalha/ Pela perda da batalha, perdeu-se o reino/ E tudo por causa da perda de um cravo.” Parece que, nem sempre, detalhes são “meros detalhes.” Foi assim, por exemplo, quando Deus, por meio de Moisés, impôs a Ordem do Culto que Lhe seria agradável e aceitável. De início, o lugar do culto fora minuciosamente projetado mesmo para um período provisório, durante a peregrinação de Israel desde o Egito a Canaã.

Poderia parecer a alguns que, no deserto, bastaria ao povo ajuntar-se de forma solene e contrita em algum ponto e hora previamente determinados e, então, convenientemente dirigido, oferecer seus louvores e sacrifícios a Deus. Seria suficiente? Muitos, eu inclusive, poderiam pensar que sim. Estaríamos errados? Acho que não. Mas, e Deus, qual seria a Sua Santa vontade? Quando Deus manifesta a Sua vontade, então, tudo o que pensamos ou desejamos torna-se irrelevante.

Moisés foi instruído para construir um templo provisório, o tabernáculo, muito semelhante a uma tenda e este seria o lugar do centro do culto, o ponto de referência, de encontro reverente. Desmontável e transportável, para acompanhar o povo durante a travessia do deserto. O projeto básico e o projeto executivo foram estabelecidos nos seus mínimos detalhes, podendo ser conhecidos a partir do capítulo 25 do livro do Êxodo. Mesmo no deserto, com recursos limitados de materiais, ferramentas e mão de obra, os detalhes foram rigorosos e todos, sem exceção, cumpridos sem questionamentos; sem “por quê” nem “para quê.” Era a vontade manifesta de Deus. Fim.

Entre os componentes do tabernáculo, estava a “Arca da Aliança,” a marca inconfundível da presença de Deus no meio do Seu povo. Era o símbolo mais sagrado da religião de Israel. Como tal, foi projetada e construída, também, com rigor de detalhes, com instruções precisas, que podem ser conhecidas em Êxodo 25.10-16. Igualmente foram determinados todos os cuidados durante a sua remoção e o seu transporte, bem como onde e de que forma teria que ser acomodada no interior do tabernáculo e, posteriormente, no templo que seria erguido em Jerusalém.

Quatro argolas de ouro puro foram fundidas e instaladas, uma em cada canto da Arca. Dois varais de madeira de acácia, revestidos de ouro puro, foram introduzidos nessas argolas e de lá não poderiam ser removidos; seriam de uso exclusivo. Somente os sacerdotes levitas poderiam se aproximar, tocar nos varais e transportar a Arca, sempre à frente do cortejo e a uma distância mínima de dois mil côvados, cerca de 920 metros, entre a Arca e o povo. Prescrições de Deus, sem “por quê” nem “para quê.”

Quatro homens, levitas sacerdotes, tomavam a Arca pelas pontas dos varais e em perfeita harmonia de movimentos e, em silêncio reverencial, executavam a sua singular tarefa; mover, erguer, carregar e acomodar a Arca da Aliança, sinal da presença de Deus. Quando um se levantava, todos se levantavam; quando um abaixava, todos se abaixavam, quando um descansava, todo descansavam, quando um caminhava, todos caminhavam, sempre na mesma direção; todos e sempre com um único propósito, que era o de cumprir com exatidão e com harmonia de movimentos os preceitos de Deus, atentos aos detalhes, mesmo quando não os compreendiam; bastava-lhes saber e crer que assim Deus ordenara.

Houve um tempo em que explodiu a guerra entre os israelitas e os filisteus. A narrativa dessa explosão, suas causas e consequências, podem ser vistas nos capítulos 4, 5 e 6 do primeiro livro do Profeta Samuel. Israel e seus líderes, de engano em engano, foram se afastando gradativamente dos ensinos da Lei de Deus; intencionalmente, deixaram de lado os detalhes que Deus havia prescrito. Como estavam sendo massacrados pelos filisteus, cometeram o desatino de tentar transformar a Arca da Aliança num amuleto de sorte e a levaram para o campo da batalha. Perderam a guerra! Perderam a Arca da Aliança! Os filisteus, vencedores, levaram-na para a sua terra e, como de hábito, imaginaram que haviam aprisionado o Deus de Israel. Erro fatal.

Os filisteus foram castigados com terror e morte e, por fim, não suportaram a presença da Arca da Aliança na sua terra, pois é certo que “os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos.” (Salmos 1.5). A presença da Arca, a presença misteriosa e abençoadora de Deus no culto, era e continua sendo um privilégio exclusivo para os fiéis, para os verdadeiros adoradores que O buscam em espírito e em verdade. Para os ímpios e negligentes pode ser terror, castigo e maldição. Deus não Se deixa escarnecer.

Depois de sete meses de terror, os filisteus decidiram devolver a Arca para os israelitas. A Arca, então, foi parar na casa de Abinadabe (I Samuel 7.1-4), provavelmente da linhagem sacerdotal de Israel e lá ficou durante vinte anos. No final daquele período, Davi assentou-se no trono... Sua primeira decisão foi a de mover a Arca da casa de Abinadabe e levá-la para o seu devido lugar, o Santo dos Santos, no Tabernáculo, instalado na Cidade Santa, Jerusalém. Davi, o maior e mais amado rei de Israel, o homem “segundo o coração de Deus”, de imediato, ordenou as providências para a remoção e o transporte da Arca da Aliança. Entretanto, desprezou os detalhes...

O que se via era contagiante. A Bíblia Sagrada descreve a comoção que tomou conta do coração do rei e de todo o povo quando participavam da festa de retorno da Arca: “Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o Senhor, com toda sorte de instrumentos de pau de faia, com harpas, com saltérios, com tamboris, com pandeiros e com címbalos. (II Samuel 6.5). Nesse clima de exultação, os detalhes prescritos por Deus foram deixados de lado. Corações cheios de boas intenções, cheios de devoção, cheios de alegria, mas fazendo tudo errado.

Tudo era festa! “Puseram a Arca de Deus num carro novo e a levaram da casa de Abinadabe, que estava no outeiro; e Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro novo.” (II Samuel 6.3). Ao invés dos levitas sacerdotes tomarem as pontas dos varais consagrados, um carro novo puxado por bois bem treinados foi construído e nele “puseram” a Arca, acomodando-a para o transporte. “Puseram” indica que não foi observada a ordem de que somente os levitas sacerdotes podiam mover e transportar a Arca, a pé. Uzá e Aiô, dois moços, talvez adolescentes, receberam indevidamente do rei a honra de conduzir o carro para a alegria e o orgulho do papai Abinadabe... Ofereciam louvores e sacrifícios a Deus, mas Deus estava ausente porque a Sua palavra estava sendo desprezada.

Tudo parecia perfeito, o rei e o povo faziam uma festa grandiosa, exultavam; o carro era novo, realizava a sua primeira viagem, jamais fora usado para outro fim, os bois eram os melhores e, além do mais, guiados com extremo cuidado, nada podia dar errado, a Arca finalmente voltava para o seu lugar, o Santo dos Santos. Eis que, de súbito, o inesperado aconteceu: os bois tropeçaram. Com o tropeção dos bois, o tranco e a sacudida foram violentos, a Arca se desprendeu, escorregou pelo fundo do carro novo e, inexoravelmente, cairia ao chão.

Para evitar a queda, o inexperiente Uzá estendeu a mão e segurou a Arca. Este gesto, humanamente compreensível, principalmente se partido de um adolescente, foi o degrau mais baixo da desobediência ao que Deus ordenara: “Então a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu por esta irreverência; e Uzá morreu ali junto à Arca de Deus. Desgostou-se Davi, porque o Senhor irrompeu contra Uzá;” (II Samuel 6.7-8). O espetáculo com aparência de culto foi interrompido; o mega show com aparência de devoção foi parado; a festa repleta de boas intenções acabou; o riso foi convertido em lágrimas; os cânticos de louvor, em choro; em lugar de exultação, luto. E tudo porque os bois tropeçaram...

Como costumeiramente acontece, é provável que, neste início de um novo ano, muitos estejam fazendo planos, elaborando novos projetos, estabelecendo novos alvos, realinhando sonhos, reativando desejos do coração, firmando compromissos com mudanças de comportamento e jurando que vão empenhar esforços e disciplina para que no final do novo ano não exista qualquer frustração, por menor que seja; que aquela olhada para o tempo passado revele que o almejado foi alcançado, plenamente realizado. Tudo isto é salutar, é revigorante, é necessário e útil; é a vida alegremente efervescente, é sangue saudável correndo nas veias, é coração pulsante na batida certa; são pulmões renovando e deixando entrar o ar puro que traz vida e conforto físico, que dá prazer.

Entretanto, é relevante não excluir a Palavra de Deus desse processo. É prudente não esquecer que mesmo bois bem treinados e bem conduzidos podem tropeçar e que carro novo, também, desaba, resultando na perda da preciosa carga. Assim foi com Davi, com Abinadabe e com Uzá; tudo se perdeu. Assim poderá ser comigo ou com você, se não atentarmos para o fato inexorável: “Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte.” (Provérbios 16.25). É melhor não esquecer e não ignorar os detalhes da Santa e infalível Palavra de Deus. É a única alternativa para evitar que os “bois tropecem” durante a difícil peregrinação cristã, cheia de obstáculos, cheia de abismos, cheia de curvas perigosas e sempre surpreendentes. Amém.