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Aqui e lá… Já, mas, ainda, no.

Mensagem do Blog: abarcadecristo.wordpress.com

“Disse o Senhor a Moisés: Envia homens que espiem a terra de Canaã, que eu hei de dar aos filhos de Israel; de cada tribo de seus pais enviareis um homem, sendo cada qual príncipe entre eles. Assim subiram e espiaram a terra desde o deserto de Zim até Reobe, à entrada de Hamate. Depois, vieram até ao vale de Escol e dali cortaram um ramo de vide com um cacho de uvas, o qual trouxeram dois homens numa vara, como também romãs e figos.” ( Números 13.1,21,23)

A Igreja Cristã, para manter-se viva, assim como Israel no deserto, precisa ser alimentada com os ingredientes espirituais da esperança escatológica. O desejo crescente de atingir o alvo supremo, de chegar ao destino sinalizado e a força sobrenatural foram os recursos que fizeram com que Josué e Calebe não desistissem. Esses mesmos recursos, ainda hoje, fazem a Igreja Cristã caminhar; cansada, sofrida, distraída, enganada, atacada; muitas vezes, explorada, mas sempre caminhando… Caminhando… Caminhando…

Por falta de conhecimento, a Igreja é levada a concluir que a Escatologia cristã contempla exclusivamente o ensino e a aprendizagem dos eventos que, segundo a revelação bíblica, marcarão os dias finais deste mundo em que vivemos. É um erro. Igualmente, é um reducionismo circunscrevê-la ao retorno do nosso Senhor Jesus Cristo no “Dia Final”, ainda que esse retorno em fulgurante glória seja a nossa maior e mais feliz expectativa!

O estudo da Escatologia bíblica abarca uma idéia maior e mais adequada à esperança cristã. Desenvolve-se na direção da percepção, ainda que parcial, da completude que se encontra no Evangelho. Quando essa percepção se tornar a realidade consumada do Reino Eterno, então todas as coisas serão reveladas e a plenitude será alcançada. Este é o caminho da Igreja cristã: decisivo e incondicionado; definitivo, mas, ainda, provisório; confortador e fortalecedor dos peregrinos e forasteiros.

Desde a pregação dos apóstolos, começando em Jerusalém, e durante muitos séculos, o pensamento escatológico ficou condicionado e praticamente paralisado no estudo das últimas coisas. Não evoluiu. Olhando para esse longo período, podemos compará-lo a uma linha horizontal imaginária, na qual marcávamos um ponto com a palavra morte. Aí se estabelecia o marco divisório da esperança cristã.

Nessa linha imaginária, o sistema “Futurista” sugere uma sucessão contínua dos eventos marcados para os dias finais; dentre eles, o retorno de Jesus ou a segunda vinda, a ressurreição dos mortos, o juízo final, a bem-aventurança dos salvos, a condenação eterna dos ímpios, a consumação do Reino Eterno e a abertura das portas da Cidade de Deus, na qual não haverá noite, nem luto, nem lágrimas.

Entretanto, nos últimos 100 anos, estudiosos admiráveis com incomum capacidade de interpretação, trouxeram à tona um pensamento novo solidamente desenvolvido que, de imediato, recebeu aprovação nos círculos de estudos teológicos. Tudo começou com um intenso e cuidadoso reestudo do Evangelho, segundo a narrativa do Apóstolo João. O expoente dessa nova maneira de pensar foi Charles C. Dodd (1884 – 1973). Em seu livro mais conhecido, “A Interpretação do Quarto Evangelho” – Edições Paulinas – 1977, o leitor interessado pode aquilatar os fundamentos do novo vislumbre escatológico que passou a ser conhecido com o título de “Escatologia Realizada.” Essa nova maneira de pensar sobre os dias finais deu uma contribuição positiva ao sistema Amilenista de interpretação da Bíblia Sagrada; também, contribuiu para que pudéssemos refletir sobre algo deslumbrante: a possível percepção da “Antecipação” do Reino Eterno de Cristo, do qual somos súditos.

A “Escatologia Realizada” gira em torno de um eixo que se resume numa curta e paradoxal declaração: “Já, mas, ainda não!” O conteúdo desta declaração nos convida a refletir sobre o fato de que O Reino de Deus é um evento presente. Não se trata de um reinado exclusivamente escatológico, futurista. Assim como Deus é Eterno, o Seu reino, também, é eterno e, portanto, é uma realidade presente que pode ser parcialmente desfrutada pela Igreja cristã contemporânea aqui, agora e sempre.

Quando questionado sobre a irrupção do Reino de Deus entre os homens, Jesus deu respostas definitivas para confirmar a Sua origem e a Sua identidade: Ele era o Messias Prometido, o Ungido de Deus, o Salvador, o Redentor de Israel e da Igreja: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vós.” (Mateus 12.28). “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o Seu Reino.” (Lucas 12.32). O Reino foi inaugurado, mas, ainda, não foi consumado, o que somente acontecerá com o retorno de Jesus. Por esta razão, a denominação de “Escatologia Realizada” foi, de maneira apropriada, mudada por alguns para “Escatologia Inaugurada” ou “Escatologia em Realização”.

A surpreendente chegada do Reino de Deus foi proclamada por Jesus quando na estréia do Seu ministério, Ele chegou à sinagoga de Nazareth, tomou nas mãos a Profecia de Isaías e leu: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.” (Lucas 4.18-21). O Reino de Deus estava inaugurado, estava entre nós e em nós, e assim permanece. Aleluia! A consumação, que ainda aguardamos, virá, conforme a promessa da Bíblia Sagrada: “E será pregado este Evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim.” (Mateus 24.14).

Os milagres realizados por Jesus e registrados no Evangelho segundo escreveu João, foram objeto de uma abordagem diferente daquela verificada nos Evangelhos chamados Sinóticos; nestes, os destaques são o poder e a compaixão de Jesus pelos doentes, famintos, desesperados, perdidos, cansados, sem Deus e sem esperança. No texto de João os mesmos milagres são abordados como sinais, e somente sinais, pequenas amostras de uma realidade infinitamente maior: o Reino de Deus. E, por isto, o Evangelho de João é, também, chamado de O Evangelho dos Sinais. Sinais do Reino, onde não haverá pranto, nem dor, nem luto, nem enfermidade, nem fome, nem sede, nem despedida. Lá onde Deus será Tudo em todos.

No texto do livro de Números acompanhamos os peregrinos de Israel na sua chegada ao deserto de Parã. O povo de Deus deixara o Egito depois de 400 anos de escravidão e, agora, depois de 40 anos de caminhada no deserto, finalmente chegava às proximidades da Terra Prometida. Cheios de esperança, cansados e ansiosos aguardavam a posse da Terra. Assim nós, também, aguardamos a posse do Reino Eterno. Estamos “… esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a Sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça.” (I Pedro 3.12-13). Este será o “Dia Final” dia da consumação do Reino de Cristo.

Até a chegada no deserto de Parã, muitas lutas e dificuldades tinham sido superadas; o calor causticante, os momentos de angústia das mulheres que davam à luz sem o conforto necessário, a tristeza e a saudade por conta de uma geração inteira que fora sepultada no deserto, as serpentes abrasadoras que aterrorizavam e matavam, a ansiedade pela comida e pela água, o desânimo, a exaustão. Assim, Israel caminhava movido pela fé e pela esperança. Apenas olhava e caminhava.

Naquela paisagem de quase desolação, o Deus Pai decidiu dar aos Seus filhos um sinal, talvez o primeiro com características semelhantes aos que, muitos séculos depois, o Apóstolo João destacaria no seu Evangelho dos Sinais. Moisés enviou espias que foram à frente do povo para ver as condições da Terra que, em breve, iria possuir. De lá voltaram trazendo notícias alvissareiras e frutos, abundantes frutos, como exemplo do que viram; cachos de uvas tão grandes e bem formados que somente dois homens podiam carregá-los. Na aridez do deserto de Parã, surgiu um sinal para revigorar, fortalecer e empurrar os peregrinos na direção da bênção maior.

Naqueles cachos de uvas doces como mel, a “Escatologia Realizada” ou “Em Realização” se mostrou pela primeira vez. O Deus Pai concedeu aos Seus filhos que vivessem uma “Antecipação” do gozo permanente que poderiam desfrutar no lugar que lhes prometera. Ainda era preciso caminhar um pouco mais e empenhar-se na conquista vitoriosa da Terra, mas agora com as forças e esperanças renovadas. Israel estava pronto para ouvir a voz de Deus que, desde a saída do Egito, ecoava nos corações e mentes: “Dize aos filhos de Israel que marchem.” (Êxodo 14.15). Israel marchou!

Os sinais do Reino de Deus continuam visíveis para a Sua Igreja que muitas vezes, de tão distraída, não os vê. Por falta de discernimento, olha somente para o chão, onde estão a areia quente do deserto e as serpentes abrasadoras. Enquanto isso, os cachos de uvas vão passando e passando… Do Alto Céu, Deus o Pai olha para Sua Igreja querida e continua a fazer a Sua doce voz ecoar: “Dize aos filhos de Israel que marchem!” Quando discernir os sinais, a Igreja obedecerá e marchará, até que volte o Redentor. Amém