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Um pra l, um pra c

“Digo-vos que, naquela noite, dois estarão numa cama; um será tomado, e deixado o outro; duas mulheres estarão juntas moendo; uma será tomada, e deixada a outra. Dois estarão no campo; um será tomado, e o outro deixado.” (Lucas 17.34-36) 

A incomparável Elis Regina (1945-1982) continua no topo das melhores cantoras da música popular brasileira. Fugiu da vida muito cedo, aos 37 anos de idade, quando desfrutava do auge do sucesso e encantava um Brasil inteiro de admiradores entusiastas da sua arte e da sua beleza rara enquanto cantava. Era assim que muitos de nós, seus contemporâneos, a víamos quando interpretava, por exemplo, a canção “São dois prá lá, dois prá cá”, composição belíssima de João Bosco (1946 -) e Aldir Blanc (1946 -), músicos extraordinários que construíram juntos uma obra memorável que inclui, entre tantas outras, a fascinante canção denominada “O Bêbado e a Equilibrista”, também gravada por Elis Regina.

“São dois prá lá, dois prá cá” descreve a ternura de um convite para dançar, a troca de doces afagos enquanto a música embala os passos numa cadência de pura harmonia e grande prazer, expectativa e realização de alegria incomum na mesma trilha sonora sempre; dois passos prá lá, dois passos prá cá; dois passos prá lá, dois passos prá cá num abraço aconchegante, prazeroso e protetor, interminável. “São dois prá lá, dois prá cá”, sempre juntos, passo a passo, nada de distanciamento, nada de separação. Separações e despedidas são, na maioria das vezes, circunstâncias de tristeza acentuada e dor aguda.

Lembrei-me dessa canção recentemente enquanto fazia uma releitura dos textos escatológicos dos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e refletia sobre o que, possivelmente, pensavam os discípulos enquanto ouviam o contundente sermão do Senhor Jesus. A escatologia é o ramo da Teologia que trata do porvir, dos dias finais que culminarão com o “Último Dia”, no qual o Senhor Jesus voltará a este mundo para buscar a Sua Igreja e para decretar a integral e definitiva implantação do Seu Reino Eterno. O esperado “Último Dia” romperá súbito, imprevisível, paradoxalmente inesperado “...porque assim como o relâmpago, fuzilando, brilha de uma a outra extremidade do céu, assim será, no Seu dia, o Filho do Homem.” (Lucas 16.24)

A escatologia não é priorizada nas Igrejas evangélicas contemporâneas, talvez em razão da sua complexidade. Existem defesas sólidas e bem estruturadas de princípios de interpretação bíblica que se dividem em grupos distintos denominados de “Amilenismo”, “Pré-milenismo histórico”, “Pré-milenismo dispensacionalista” e “Pós-milenismo.”Os teólogos que defendem cada um desses sistemas têm como eixo dos seus pensamentos o registro de Apocalipse 20.1-6 e, obviamente, não deixam de considerar com redobrada atenção o registro denso de Daniel 2.1-49.

Adotar um ou outro princípio não é questão espiritual de valor capital. Todos os grupos convergem para Cristo, que realiza em todos o milagre da Unidade de “um só rebanho, um só Pastor, uma só fé em um só Salvador”, como nos ensina o belíssimo hino cantado em nossas Igrejas. Não tenho por objetivo fazer aqui uma síntese de cada um desses sistemas, pois a extensão da escrita poderia desestimular os leitores. Entretanto, considero conveniente declarar-me “amilenista” apenas para facilitar o entendimento deste meu texto. Não entro em qualquer debate, oral ou escrito, sobre o tema. Não vale a pena.

Como “amilenista”, entendo e creio que o milênio começou no dia em que Jesus nasceu em Belém da Judéia e que terminará no dia em que Jesus voltar, no “Último Dia.” O milênio está, portanto, em processo de realização. A experiência eclesiástica mostra que a abordagem de temas escatológicos e a referência aos capítulos apocalípticos da Bíblia Sagrada fazem com que os pensamentos dos cristãos voem para um único ponto: “A Volta de Cristo”, a “Segunda Vinda.” Não é de se estranhar que seja assim. Afinal, é neste ponto futuro que se firmam a maravilhosa e misteriosa esperança cristã e a exuberante expectativa da Igreja Peregrina: o reencontro com o Redentor que virá do céu em poder e grande Glória. Aleluia! Há cerca de dois mil anos, as trombetas ecoam e lembram a infalível promessa: “...varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir.” (Atos dos Apóstolos 1.11)

Os estudiosos da Bíblia Sagrada, assim como os cristãos de maneira geral, que buscam se informar com razoável interesse, constatam que o “Último Dia” não trará, apenas, a alegria e a realização do reencontro com Redentor. Naquele dia, o poder e a Glória de Jesus impulsionarão a ressurreição dos mortos; o céu se abrirá para que a Igreja do Redentor seja entregue por Ele mesmo nas mãos de Deus, o Pai; toda a criação - rios e bosques, regatos e lagos, pomares e jardins, florestas e riachos, flores e frutos, leite e mel, animais domésticos e selvagens, extintos ou não – será redimida. “...a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.” (Romanos 8.21-22)

Aquele dia trará também imensa consternação, pois será o dia do Juízo Final. Jesus, o Supremo Juiz, fará a dolorosa separação da humanidade: de um lado, os que O aceitaram e foram justificados pelos méritos do Seu sacrifício na Cruz e que serão destinados para o endereço de Deus, a Cidade de Deus, a Jerusalém Celestial. De outro lado, aqueles que O rejeitaram, que viveram de conformidade com os seus próprios conceitos religiosos, que ignoraram o sacrifício da cruz, que andaram nos seus próprios caminhos, que negligenciaram a verdade do Evangelho de Jesus. O destino destes será o inferno, é o que a Bíblia Sagrada assevera. “...então, dirá o Rei aos que estiverem a Sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Então, o Rei dirá também aos que estiverem à Sua esquerda: Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” (Mateus 25.34 e 41)

“São dois prá lá, dois prá cá” mantém unidos os companheiros nos agradáveis passos da dança. Bem diferente é a canção escatológica de Lucas 17.34-36, na qual o nosso Senhor Jesus Cristo nos adverte que no “Último Dia” acontecerá uma inexorável separação entre justos (Um prá cá) e ímpios (Um prá lá). Os exemplos dados por Jesus apontam para a probabilidade de “Um prá lá, um prá cá”, porém, em nada se assemelhando a um passo alegre de dança; ao contrário, indicam a definitiva, a eterna separação de pessoas. Marido e mulher, na mesma cama, um casamento de longa e perfeita harmonia na terra e uma abrupta separação no “Último Dia.” “Um prá lá, um prá cá.”

Duas mulheres dividindo a mesma moenda, produzindo o mesmo trigo, compartilhando o mesmo pão de cada dia, dificuldades, lutas, alegrias, preocupações, construindo uma sólida amizade, dividindo confidências e, num minuto, uma será removida e a outra será deixada numa radical separação. “Uma prá lá, uma prá cá.” Dois amigos suando no mesmo campo, trabalhando arduamente pelos seus salários e, quem sabe, compartilhando a comida e as ferramentas numa sólida e leal amizade. De repente, “Um prá lá (onde o inferno o aguarda) um prá cá”(onde Deus está), separados para sempre e sempre. Assim será no “Último Dia”: Um prá lá, um prá cá.

A Bíblia Sagrada silencia sobre o método de Deus na condução destes últimos acontecimentos. Não somos informados sobre o que Deus fará para que os justos não sejam consumidos pelas lágrimas e pela tristeza de saber que alguns dos seus queridos foram contados entre os ímpios. O certo é que “Um prá cá”, onde Deus está, contempla “...uma grande multidão, que ninguém pode enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas...” (Apocalipse 7.9) e ”Estes serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” (Apocalipse21.3-). Esta é a extraordinária expectativa da Igreja Cristã Peregrina que caminha e aguarda o “Último Dia.”

Os caminhos “prá lá” e “prá cá” estão abertos e assim ficarão até o dia da volta de Jesus e, então, serão definitivamente fechados. Aqui neste mundo somos peregrinos e forasteiros e caminhamos, olhando para o além, “Pois a nossa Pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, O qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da Sua Glória.” (Filipenses 3.20-21). “Um prá lá, um prá cá.” Que bom seria se fosse “Um prá cá, o outro também.” Isto conheceremos quando o Redentor voltar. Amém.