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No canto da cerca

“Como o Pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão.” (Ezequiel 34.12) 

Procurei nos melhores dicionários o significado de uma palavra que muito me ajudaria na elaboração deste texto. É verdade que não se trata de uma palavra de uso comum, com a qual tenhamos uma convivência de longa data ou que faça parte das nossas conversas rotineiras ou que tenha uma presença contínua e relevante nos nossos diálogos ou na construção das nossas ideias. Muito recentemente, comecei a ter contato com essa palavra em uns pouquíssimos livros e textos de natureza exclusivamente eclesiástica e, a partir de então, passei a utilizá-la e a ouvi-la com razoável freqüência. Presumo que, em breve, essa palavra pelo seu uso, será incluída nos dicionários de Teologia, nos dicionários bíblicos em geral e, por fim, quem sabe, nos dicionários da língua portuguesa.

Refiro-me à palavra “desigrejado” que, quase sempre, aparece no plural, “desigrejados”, significando e apontando para uma grande massa de cristãos confessos, pessoas que tiveram, efetivamente, uma experiência de salvação em Cristo, que abraçaram com braços fortes e determinados o Evangelho da Graça, que seguem cultivando uma vida piedosa de leitura e meditação da Bíblia Sagrada, de oração e de compromisso de amor ao próximo; vidas de santo temor e de humilde reverência diante da realidade da onipresença da Santíssima Trindade em todos os cantos e recantos deste universo sem fim; onipresença cósmica da qual ninguém pode fugir. No entanto, essa massa de cristãos “fugiu” e continua “fugindo” da Igreja, da instituição exageradamente pesada.

O uso da palavra é novo e, por enquanto, restrito. Entretanto, o seu significado vem de longa data. Parece-me que, durante o cativeiro de Israel na Babilônia, cerca de 600 anos antes de Cristo, o Profeta Ezequiel foi levado pela graça de Deus a identificar, pela primeira vez na História da Salvação, os “desigrejados” do seu tempo. O fenômeno é, portanto, antigo. Todo o capítulo 34 da Profecia de Ezequiel foi escrito para tornar conhecido o drama, o sofrimento e o quase desespero dos “desigrejados” do Velho Testamento. O texto do capítulo 34 é claro ao trazer à superfície a responsabilidade dos Pastores infieis de Israel, contra os quais os versículos de 1 a 10 impõem, por parte de Deus, a culpa pela dispersão das ovelhas do Seu Rebanho: “Ai dos Pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! A [ovelha] fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.” (Ezequiel 34.2 e 4).

Dispersadas, fugidias do rebanho, as ovelhas “desigrejadas” do Velho Testamento ficavam expostas a três tipos principais de perigos: (1) as mandíbulas dos predadores, os seus ataques ferozes, os inimigos incansavelmente presentes e persistentes, representados no texto pelos governantes dominadores, a maioria deles disposta a tudo para descaracterizar a fé e a religião de Israel e, assim, destruir a unidade do rebanho; (2) a localização geográfica do exílio, caracterizada por “um dia de nuvens e de profunda escuridão” terrível, insuportável para ovelhas que, normalmente, não têm boa visão e que à noite somente se sentem seguras, tranquilas e confortáveis quando recolhidas no curral e na companhia dos seus bons pastores; (3) a real possibilidade de se conformarem e de se adaptarem às condições e às práticas tão naturais do lado de fora do curral. Não foram poucos os “desigrejados” de Israel que, no cativeiro babilônico, foram seduzidos pelas oportunidades, pelo progresso econômico e financeiro, pela cultura da Babilônia e se deixaram ficar de fora do seleto e abençoado grupo do “Remanescente Fiel”, a “Santa Semente.” (Isaías 6.13).

Hoje, também, são muitos os “desigrejados”, os que concluíram que não suportam mais o fardo institucional, que não aguentam mais os maus exemplos de líderes, de maus pastores que, a exemplo dos maus pastores de Israel, querem e lutam com armas e estratégias benignas ou malignas, sejam elas quais forem, para se apascentar a si mesmos e para alcançar e se manter no topo do poder eclesiástico; para dominar o rebanho com rigor e dureza e, desse rebanho, extrair o último grama de gordura depois de uma tosquia severa que o deixa inteiramente exposto à nudez e ao frio congelante do dia de nuvens e de escuridão.

Recentemente, ouvi de um grande amigo e irmão, um quase novo “desigrejado”, que o Pastor de sua Igreja em Belo Horizonte, confesso adepto da antibíblica “teologia da prosperidade” (título técnico), no final do culto dominical, Igreja lotada, convidou para ir à frente todos os presentes, inclusive desempregados, que estivessem endividados, com contas atrasadas, faturas de cartões de crédito vencidas e impagáveis, limites de cheques especiais excedidos e protestados, aluguéis na linha extrema do despejo e outros. É fácil imaginar a multidão de aflitos que atendeu ao convite, impulsionada pela esperança de um bálsamo para as suas aflições. Então, pasmem, o pastor, manipulando malignamente a graça do Evangelho, sugeriu que fizessem uma soma rápida e aproximada das dívidas e que, em seguida, para confirmar a fé na Providência de Deus, depositassem no gazofilácio o dízimo das dívidas! Quem sabe, com mais um cheque pré-datado para aumentar o pavor de cada dia... A multidão desesperada, como ovelhas que não têm pastor, segue na sua marcha para a morte num dia de nuvens e de escuridão.

Os “desigrejados” são aqueles que, de fato, já deixaram a Igreja. Também existem os potencialmente “desigrejados”, aqueles que já não encontram alegria no culto, que não se sentem como ovelhas do aprisco e que se refugiam no canto da cerca empenhando um enorme esforço para se manter na comunhão do Corpo de Cristo. Ovelhas feridas, magoadas, famintas, sedentas, doentes, fracas e que, sem força, já nem percebem que precisam urgentemente de alimento, de água e de cura. Sem voz, sem ação, sem amparo, simplesmente esperam... E esperam. Logo, logo se ajuntarão àquelas que já esqueceram o caminho do templo.

O canto da cerca é um lugar inativo, silencioso, perturbador, de quase desesperança, de longa espera, onde as ovelhas fracas são empurradas, atropeladas e, ignoradas na sua fraqueza, são dispersas; deixam o aprisco sem serem notadas e se perdem medrosas e tristes no dia de nuvens e de escuridão. Muitas nem sabem que engrossam a marcha da morte. É visível que alguns líderes agem como se a “sua” Igreja fosse o Reino de Deus ou, o que é pior, como se o Reino de Deus fosse a “sua” Igreja. A Bíblia Sagrada corrige esse erro, essa conveniência maligna; o Deus de Israel, o Senhor absoluto e único da Igreja que pertence, exclusivamente, a Jesus Cristo, tem o poder de interromper a marcha da morte e, em abundante misericórdia e graça, sai em busca das Suas ovelhas nos lugares mais afastados; onde quer que tenham sido espalhadas, encontra todas, resgata todas, livra-as do medo do dia de nuvens e de escuridão. Nenhuma será esquecida, nenhuma continuará perdida.

A cerca do curral do Supremo Pastor não tem canto. Portanto, nenhuma ovelha terá necessidade de se autoproteger; nenhuma será esquecida no canto da cerca. O Supremo e Verdadeiro Pastor, aquele que “dá a Sua vida pela vida das Suas ovelhas” prometeu que “Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o Senhor Deus. A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei.” (Ezequiel 34.15-16). Estas ovelhas serão reconduzidas ao Reino Eterno, pois elas, mesmo nas suas fraquezas, doenças e dispersão, jamais deixaram de pertencer ao Reino de Deus. Assim será até que volte o Redentor. Amém.