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A mo de Deus na parede

“No mesmo instante, apareceram uns dedos de mão de homem e escreviam, defronte do candeeiro, na caiadura da parede do palácio real; e o rei via os dedos que estavam escrevendo.” (Daniel 5.5) 

Nestes últimos dias dediquei-me à agradável leitura do livro “Rumores de outro mundo” – Philip Yancey – Editora Vida – 2004. Então compreendi um pouco mais a enorme atração que eu tenho pelos mistérios contidos na Bíblia Sagrada, especialmente aqueles que estão relacionados com a consumação do Reino Eterno, com a volta de Cristo e com o destino que nos aguarda após a nossa morte física, incluindo, é claro, a ressurreição do corpo e o juízo final, que estabelecerá os limites, as distâncias e as separações entre o céu e o inferno.

Percebi que no meio do povo de Deus são muitos os que se esforçam para manter os ouvidos aguçados na direção desses rumores. Essa atração, uma santa curiosidade, mostra que grande parte dos leitores da Bíblia Sagrada gostaria que esses rumores fossem mais reveladores. Entretanto, aprouve a Deus que fossem somente rumores a fim de que durante a nossa peregrinação nesta terra, fossemos conduzidos, por meio da difícil e sobrenatural realidade da fé, como que vendo o invisível; e crendo nele!

Foi a partir dessa leitura que procurei conhecer um pouco mais da biografia de Morton Kelsey, um renomado conferencista e escritor cristão, bispo da Igreja Episcopal Anglicana, um senhor gentil, amável e amado, residente no Colorado, Estados Unidos. Ele mantém sobre a sua mesa de trabalho um estranho exemplar do Novo Testamento com uma capa diferente e chamativa. Dedicando-se a uma tarefa extenuante e que lhe exigiu um imenso cuidado e uma enorme habilidade manual, além de uma acurada análise exegética com leituras e releituras de todo o texto do Novo Testamento, inclusive no grego original, ele recortou todos os versículos e passagens que, de alguma forma, fazem referência às realidades do mundo porvir: o céu, a volta de Cristo, a ressurreição do corpo, o arrebatamento da Igreja, o juízo final, a herança bendita dos salvos, a glorificação, a condenação eterna dos ímpios, a morte da morte, tudo, absolutamente tudo foi cortado e retirado desse estranho exemplar do Novo Testamento. Nada menos do que 2.413 versículos foram retirados e, em seus lugares, restaram apenas espaços vazios.

O bispo Morton Kelsey surpreende aqueles que o visitam pela primeira vez. Percebendo a curiosidade do visitante com a capa diferente do Novo Testamento, pede-lhe gentilmente que tome o Livro e leia um texto de sua preferência. O visitante se desconcerta diante da complicada tarefa. As páginas despencam; se desorganizam; os textos se mostram truncados, sem sentido; a ordem se desfaz. O amável e amado Pastor encontrou neste método a maneira de ensinar ao seu visitante a mais prática e definitiva lição sobre o monumental texto de I Coríntios 15: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (I Coríntios 15.19). Morton Kelsey complementa a lição prática dizendo ao seu privilegiado visitante:

Assim como este livro em suas mãos não se sustenta de forma ordenada, o texto dos Evangelhos, as Cartas, o Apocalipse, todo o Novo Testamento fica esvaziado, sem sentido, sem coerência, sem finalidade se dele forem retirados os rumores do mundo porvir. Da mesma maneira, a sua vida não encontrará o menor sentido no cristianismo se os seus olhos e o seu coração forem postos somente nas oportunidades e nos ganhos deste mundo visível e destes tempos tenebrosos. Sua vida será uma completa desordem, um deserto espiritual.

O Profeta Daniel foi o mais completo porta-voz desses rumores do outro mundo no tempo em que Israel estava desterrado e escravizado lá na Babilônia, onde permaneceu durante 70 anos. Paradoxalmente, Daniel não foi um profeta eloqüente, de grandes discursos, de admoestações vigorosas, de exortações marcantes. É o único Profeta do Velho Testamento que jamais se credenciou junto ao seu povo com as célebres e costumeiras afirmações, tais quais: “Veio a mim a Palavra do Senhor dizendo:” ou “Assim diz o Senhor.”

Esse admirável homem de Deus preferiu o silêncio das atitudes discretas; o seu ministério profético foi exercido com economia de palavras; falava tão somente o essencial, o necessário, sem repetições. Escolheu proclamar a grandeza do Deus de Israel, por meio do seu impecável comportamento religioso; o seu testemunho pontilhado de grandiosas atitudes de coragem, fidelidade e submissão a Deus e aos reis, foi um incontrolável alto-falante ampliando os rumores do outro mundo. Daniel foi o Profeta do testemunho pleno, ações, mais do que palavras! Nele residia a luz, a inteligência, a sabedoria, dons da graça de Deus que lhe permitia ouvir, ver, entender e interpretar as diversas manifestações do juízo de Deus, conforme lhes chegavam em sonhos e visões no reino da Babilônia e, não raro, deixavam os governantes e os seus palacianos apavorados.

O capítulo 5 da Profecia de Daniel descreve um desses rumores. No palácio real acontecia um banquete, uma orgia nefanda organizada pelo ímpio rei Belsazar e não faltavam as bebidas fortes que deixavam todos embriagados; também não faltavam as mulheres e as concubinas e, com elas, os excessos apelativos de sensualidade pecaminosa e sexualidade descomprometida. Estando o rei presente, ele era o limite para tudo o que pretendessem fazer, o que significava não haver limites. Na sua insanidade ele ordenou que trouxessem para a orgia, para a sua mesa, os cálices e demais utensílios sagrados que ornavam o templo de Deus em Jerusalém e que haviam sido retirados pelo exército da Babilônia durante a invasão da Cidade Santa e a destruição do templo. A mesa de Belsazar estava posta e os lugares todos tomados pelos mais de mil convidados; uma festa pagã para deuses pagãos.

Foi aí que, “no mesmo instante”, ecoaram no salão do banquete os rumores do outro mundo! Quem poderia discerni-los? Quem poderia interpretá-los? “Dai ouvidos ao trovão de Deus, estrondo que sai da Sua boca; Ele o solta por debaixo de todos os céus, e o Seu relâmpago, até aos confins da terra. Ruge a Sua voz, troveja com o estrondo da Sua majestade…” (Jó 37.2-4) O semblante do rei se turbou, os que com ele festejavam ficaram apavorados e os “seus joelhos tremiam, batiam um no outro.” (Daniel 5.6).

Os rumores do outro mundo ecoaram através de uma assustadora mão isolada, sem braço, sem corpo, que, para assombro geral, escrevia palavras não tão comuns na parede à vista de todos. Por experiências anteriores, a rainha-mãe, já bem idosa, chamou Daniel e lembrou ao rei que o profeta de Deus era o único na corte que poderia ler e interpretar as palavras cercadas de mistério. Para interpretar as palavras de Deus, somente um homem de Deus. Na parede ficaram fixados os rumores do outro mundo. ”Mene, Mene,Tequel e Parsim” (Daniel 5.25).

Com a autoridade da vocação profética, Daniel encarou o rei que ousou profanar os utensílios sagrados do templo e declarou o significado das palavras: “Contou Deus o teu reino e deu cabo dele. Pesado fostes na balança e achado em falta. Dividido foi o teu reino e dado aos medos e persas.” (Daniel 5.26-28) Os rumores do outro mundo se tornaram reais, foram plenamente revelados e cumpridos naquela mesma noite; por causa da sua idolatria e da sua blasfêmia ”Naquela mesma noite, foi morto Belsazar, rei dos caldeus. E Dario, o medo, com cerca de sessenta e dois anos, se apoderou do reino.” (Daniel 5.30-31). Daniel, o profeta revelou o essencial e pela sua boca, a ira santa de Deus foi servida na “mesa de Belsazar.” Na parede, o julgamento divino; na mesa, a aplicação da justiça de Deus. Rumores do mundo invisível, do Reino Eterno, onde habita a Justiça Suprema e Perfeita.

Cerca de 2600 anos já passaram, desde aquela noite assustadora, mas a mão de Deus continua a escrever nas paredes deste nosso mundo visível, atual e tenebroso. O que Deus tem escrito tem sido ignorado por um povo que se declara cristão, adepto desta ou daquela Igreja chamada cristã, mas que, na sua maioria, se mostra incapaz de perceber e entender os rumores do outro mundo. A “festa” pagã neste mundo visível continua; a “mesa de Belsazar” está posta em diversos e estranhos lugares. Em torno dela se acomodam os políticos, os governantes, “sucessores de Belsazar”, lobos roubadores.

A “mesa de Belsazar” cultuava a idolatria; “… dava louvores aos deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra.” (Daniel 5.4) Essa mesa exercia e continua exercendo um forte poder de atração, principalmente pelo prazer desmedido que prometia, pelo prestígio de comer e beber na companhia do rei e de desfrutar dos seus privilégios. O inferno sabe organizar os seus banquetes, arrumar a “mesa de Belsazar” e distribuir as cadeiras à sua volta de tal maneira que as pessoas se sintam importantes, poderosas, únicas e insubstituíveis. Em nossos dias, a fé evangélica, o Cristianismo bíblico e o padrão eclesiástico têm sido constantemente envergonhados por líderes religiosos, falsos pastores que se atropelam na corrida pela busca do lugar mais proeminente, a cabeceira dessa mesa do inferno. E as multidões, enganadas e distraídas, seguem esses banquetes… Seguem esses líderes… e deixam a cruz bem distante, à margem do caminho…

A mão de Deus está ativa escrevendo, sem cessar, nas paredes deste mundo visível. Somente os homens de Deus, verdadeiramente chamados, habilitados e comprometidos com o genuíno cristianismo bíblico são capazes de ler essas escrituras de juízo, rumores do mundo vindouro, e de revelar o que elas “escondem”. Entretanto, as Igrejas, os cristãos, os líderes, os pastores do genuíno cristianismo bíblico precisam urgentemente fazer uma escolha definitiva: Para onde olhar? Para a caiadura da parede, onde a mão de Deus escreve, ou para a “mesa de Belsazar” e seus atraentes apelos? Os rumores do outro mundo não cessarão jamais, até que volte o Redentor. Aleluia! Amém. 

 

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