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Haver festa em Serepta?

“Então, lhe veio a palavra do SENHOR, dizendo: Dispõe-te e vai a Sarepta, que pertence a Sidom, e demora-te ali, onde ordenei a uma mulher viúva que te dê comida.” (I Reis 17.8-9) 

“Festa”, tal qual se define no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Quarta edição – 2009 – Editora Positivo), “é uma reunião alegre para fim de divertimento”; é, também, o “conjunto das cerimônias com que se celebra qualquer acontecimento”. É, ainda, “solenidade, comemoração, regozijo; dia santificado, de descanso”. Por fim, define-se, também, como “comemoração litúrgica, solenidade da Igreja, romaria com grande manifestação de júbilo”. A partir dessas últimas definições, podemos incluir as “festas solenes ao SENHOR”, denominadas, também, de “Santas Convocações”, descritas no capítulo 23 do livro de Levítico e que eram ordens de Deus dadas ao povo de Israel. Assim se expressava o desejo de Deus de que a Sua gente manifestasse regozijo, alegria e felicidade em tê-LO como seu SENHOR e em reconhecê-LO como único e verdadeiro Deus. Antevia-se que “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate” (Provérbios 15.13).

Mas a peculiaridade das festas do Velho Testamento não estavam, apenas, na conservação de uma lembrança, como em simples aniversários. Nas reivindicações de Deus, as festas atualizavam os eventos históricos para cada geração do povo de Deus: a roupa do viajante, com a qual se celebrava a Páscoa (Êxodo 12.11), as tendas, nas quais se habitava na festa dos Tabernáculos (Levítico 23.41-43), as procissões festivas, relembrando a entrada da Arca em Sião (II Samuel 6.14-15). Estas e outras, aqui não mencionadas, eram também representações litúrgicas. Essas significavam para Israel que ele era sempre, de novo, o povo libertado do Egito por JAVÉ e, com esse povo, Deus renovava a aliança e se tornava o Seu REI único e absoluto. Dias de inesquecíveis alegrias e de estreitamento da comunhão feliz do povo com o seu próximo e com o Deus forte e poderoso nas batalhas.

No capítulo 23 do livro de Levítico está ordenado: “Disse o SENHOR a Moisés: fala aos filhos de Israel e dize-lhes: As festas fixas do Senhor, que proclamareis, serão santas convocações; São estas as Minhas festas” (Levítico 23.1-2). Dentre as muitas festas do calendário religioso judaico, as três de maior significação, também chamadas “Festas de Peregrinação” ou “Festas de Colheita”, estão associadas ao êxodo do Egito. São elas:

(1) Pessach (Páscoa, “Passar por sobre”) é a festa da liberdade, comemorando a redenção dos escravos israelitas do Egito e apontando adiante para a redenção do mundo na Idade do Messias. Para nós, os cristãos, o Messias já chegou na pessoa de Jesus, o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Trindade Santa. Desde então, temos aprendido no Novo Testamento que a celebração da festa da Páscoa Judaica deu lugar à celebração da “Ceia do Senhor”, que acontece regularmente, no mínimo uma vez a cada mês nas Igrejas cristãs evangélicas históricas. Haverá festa em Sarepta?

(2) Shavuot (Pentecostes, “Semanas”) é a festa da colheita do trigo, mas, com o passar do tempo, passou a lembrar, também, o momento em que o Decálogo foi revelado a Moisés e aos israelitas no Monte Sinai. Permanecendo fiéis à tradição religiosa, os judeus mantêm o costume de, nessa festa, decorar as sinagogas com flores e plantas de grande diversidade, por crerem que, quando Deus Se revelou a Moisés, o Monte Sinai, uma montanha seca e árida, explodiu em flores de variadas cores e de inigualável beleza. Para nós, os cristãos, a Festa de Pentecostes deu lugar ao Dia de Pentecostes, que aconteceu em Jerusalém, quando o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, foi derramado sobre os Apóstolos, sendo que a multidão que presenciava o estranho acontecimento ficou perplexa, atônita. Seguiu-se, então, o inflamado sermão do Apóstolo Pedro em defesa de Jesus e do evangelho, e os que aceitaram a sua palavra e creram foram batizados; cerca de três mil pessoas convertidas ao cristianismo (Atos dos Apóstolos 2.1-41). Haverá festa em Sarepta?

(3) Sukot (“Tabernáculos”), a última das três “Festas de Peregrinação” durava sete dias, começando logo após o recolhimento da colheita anual; era a mais alegre e feliz de todas as festividades do Velho Testamento. Celebrava a generosidade de Deus na natureza – chuva abundante e trigo farto – e a proteção de Deus, simbolizada nas frágeis, porém suficientes, cabanas nas quais os judeus habitavam durante a peregrinação no deserto, desde a libertação do Egito, até a chegada em Canaã. Durante Sukot, os judeus comiam e moravam nessas cabanas que davam à festa o seu nome e o seu caráter distintivo. De acordo com o que nos revela o Novo Testamento, nós, os cristãos, sabemos que não mais habitamos em cabanas frágeis e provisórias. Ao contrário e, paradoxalmente, o nosso corpo frágil, imperfeito, inclinado para o pecado, foi feito “Templo do Espírito Santo”. Isso é incompreensível, mas, pela fé no sacrifício da cruz, cada cristão, individualmente, pode afirmar: Deus habita em mim! Aleluia! Haverá festa em Sarepta?

No vocabulário coloquial, os judeus deram a essas festas uma denominação curiosa; chamavam-nas de “Shalosh regalim” (três festas a pé). Naqueles dias, a cidade de Jerusalém ficava repleta de peregrinos de toda a terra de Israel e de muitos lugares da diáspora. A população judaica da cidade era proibida de cobrar aluguel ou qualquer taxa aos visitantes e, ainda assim, ninguém jamais reclamou de não ter conseguido uma cama para pernoitar em Jerusalém enquanto durassem as festas. O pátio do templo ficava apinhado e a multidão comprimia-se ombro a ombro. Conforme a tradição, quando chegava o momento em que a multidão de peregrinos devia se prostrar, ocorria um milagre: o pátio se expandia e todos tinham espaço suficiente para se estenderem no chão. Mais tarde, isso foi interpretado pelos rabinos como significando que os judeus fervorosos só se sentem confinados quando estão eretos e orgulhosos, mas quando estão humildes, prostrados e quebrantados diante de Deus, sempre há espaço bastante para os adoradores (Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, Alan Unterman, 1992, Jorge Zahar Editor). Haverá festa em Sarepta?

Voltemos à Querite onde o profeta Elias gozava de suas férias, de sua plena restauração. Como qualquer um de nós, o profeta não queria que as suas férias terminassem. Para convencê-lo de que o seu ministério profético ainda não havia chegado ao fim e que ele, revigorado física e espiritualmente, deveria voltar ao trabalho, Deus tomou uma decisão radical: “Mas, passados dias, a torrente secou, porque não chovia sobre a terra” (I Reis 17.7). A ordem de Deus foi clara: não morra de sede no deserto; não espere por mais milagres; siga para Sarepta! Lá é o lugar onde quero que você profetize em Meu Nome; lá é o lugar em que você será o agente dos milagres. Sentindo-se forte, Elias levantou-se e, de imediato, obedeceu. Seguiu para Sarepta. Haverá festa em Sarepta?

Israel experenciava um tempo de crise, sem chuvas, sem produção agrícola, sem submissão a Deus, descrente e afastado de todos os preceitos do Pentateuco, oralmente transmitidos dos pais para os filhos; a fome e a sede entravam de forma agônica e contínua nas portas das famílias aflitas e distantes dos seus deveres religiosos. Nessa paisagem de sofrimento, o povo não vislumbrava os desejados e, até então, necessários estímulos externos para a realização das festas ordenadas por Deus. Haverá festa em Sarepta? A resposta imediata, curta, é: não. Não haverá festa em Sarepta, ou… haverá?

O que se passava no coração de Elias? Que realidades espirituais ocupavam os seus pensamentos? Ainda que o ministério do Espírito Santo não houvesse sido inaugurado, o que somente aconteceu no dia de Pentecostes, a Bíblia Sagrada não deixa dúvidas quanto ao fato de que, aqui e acolá, em tempos e situações diferentes, Deus concedera o Seu Santo Espírito, de maneira pontual e particular, a determinados homens para que estes cumprissem missões específicas. No estonteante livro dos Juízes, para cada juiz ordenado, a afirmativa se repete: “Veio sobre ele o Espírito do Senhor e ele julgou a Israel” (Juízes 3.10). Não foi diferente com Elias; todos os seus passos, todas as suas atitudes, foram impulsionados pelo Espírito Santo de Deus que, naquele tempo, IX século a.C, antecipava a graça futura que seria comum a todos os alcançados pelo sacrifício da cruz. O Espírito Santo estava com ele e nele.

Imediatamente a partir do Dia de Pentecostes, dia do derramamento do Espírito Santo sobre os apóstolos na cidade de Jerusalém, a palavra alegria, com o seu mais profundo, intenso, abrangente e verdadeiro significado, inunda os textos do Novo Testamento. Aludo tão somente a um exemplo: “… contudo, não Se deixou ficar sem testemunho de Si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” (Atos dos Apóstolos 14.17). Na história da religião de Israel, os fiés, exultantes, plenos de esperança, peregrinavam até Jerusalém ao encontro de Deus nas festas, nas Santas Convocações. Havia festa em Jerusalém mas, haverá festa em Sarepta? Sim, haverá festa em Sarepta!

O profeta Elias, novecentos anos antes da manjedoura em Belém da Judeia, foi o agente da antecipação da permanência do Espírito Santo no coração do crente. Essa mesma permanência tornou-se realidade no coração dos apóstolos, depois da ascensão de Jesus ao céu e se expandiu sobre a Igreja cristã de todos os tempos até os nossos dias. Será assim até o dia da volta de Cristo a este mundo tenebroso. Diz a Bíblia que, no Dia de Pentecostes, “Todos ficaram cheios do Espírito Santo…” (Atos dos Apóstolos 2.4.) Passados alguns anos, o apóstolo Paulo escreveu à Igreja ensinando-a o que não lhe seria possível saber por Sí mesma: “Acaso não sabeis que o vosso corpo é Santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus…?” (Atos dos Apóstolos 6.19).

Naquele Dia de Pentecostes celebrado em Jerusalém 50 dias após Pessach, tudo mudou na vida dos convertidos ao cristianismo. Essa mudança radical foi sintetizada pelo Apóstolo Paulo com grande clareza: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (II Coríntios 5.17). A oferta de sacrifícios, as festas ordenadas, as peregrinações até Jerusalém, as visitas ao templo de Salomão, tudo isso eram coisas antigas e, então passaram; tudo se fez novo. As festas não aconteceriam mais no templo em Jerusalém; o cristão é o santuário, o novo templo no qual habita permanentemente o Espírito Santo de Deus. O cristão não peregrina até o local das festas. As festas acontecem na sua interioridade; o Espírito Santo festeja, celebra no coração dos salvos e com os salvos, a obra completa e suficiente de Jesus no Seu nascimento, na Sua paixão, morte na cruz, gloriosa ressurreição e fulgurante ascensão ao céu. Aonde o cristão vai, as festas vão com ele! Sim, haverá festa em Sarepta!

Ao chegar em Sarepta, o profeta Elias rapidamente encontrou a viúva que o alimentaria conforme Deus lhe havia ordenado. Mas a viúva era pobre e tudo o que tinha era um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na botija, suficientes apenas para uma última refeição para ela e o seu filho e, depois disso, aguardariam a morte. Apesar da escassez, a mulher ofereceu ao profeta um pouco de pão e um pouco de água. Mas Elias tinha consigo o Espírito Santo de Deus e, depois de comer, profetizou que a farinha na panela jamais acabaria e que o azeite na botija jamais faltaria. Começou a festa em Sarepta! Dias depois, o filho da viúva adoeceu e morreu. Elias clamou por socorro divino, Deus ouviu o seu clamor e o moço voltou a viver. O registro completo desses acontecimentos pode ser conferido em I Reis 17. 8-24. Elias levou a festa para Sarepta! Sim, houve festa em Sarepta! Alegria e júbilo; fartura e vida.

Ao confessarmos que somos cristãos, também declaramos que somos o templo, o Santuário do Espírito Santo e, se verdadeiramente o somos, onde estivermos haverá festa. Seja em Jerusalém, em Sarepta, na Judeia, em Samaria, no Brasil e até nos confins do Mundo. Que assim seja, até que volte o Redentor! Amém.