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Eu quero ir para Querite

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“Retira-te daqui, vai para o lado oriental e esconde-te junto à torrente de Querite, fronteira ao Jordão. Beberás da torrente; e ordenei aos corvos que, ali mesmo, te sustentem.” (I Reis 17.4-5)

Gonzaguinha (1945-1991), entre os maiores e mais admiráveis letristas da música popular brasileira, morto precocemente num acidente de automóvel em 1991, deixou saudades. Era uma voz distinta a bradar contra as incertezas e as injustiças que se tornaram tão comuns e tão passivamente aceitas pelo distraído e sempre esperançoso povo brasileiro. Com freqüência, ainda, ouço as suas extraordinárias canções, muitas delas geradas e paridas na longa e escura noite da ditadura militar que tanto nos constrangeu. Enquanto ouço, fico a imaginar que letras ele escreveria nestes tempos igualmente vergonhosos da história política do Brasil.

Como ele, um crítico tão perspicaz, tão inteligente, tão talentoso e tão sensível aos dramas humanos, projetaria, numa canção de hoje, os infortúnios que são jogados às toneladas sobre a “amada pátria do Brasil”? Esta “amada pátria do Brasil”, há tanto tempo vítima de governantes cada vez mais impiedosos com quem trabalha, com quem vê o suor do corpo escorrer junto com uma enorme parcela do seu salário, conseqüência natural de uma injusta e desumana carga de impostos, sem nada receber em troca, a não ser notícias que se sucedem sempre de pior para pior. Tempos difíceis são estes. Tudo por aqui vai acabando e as tempestades devastadoras anunciam novas tempestades, ainda mais devastadoras.

Dentre as canções de Gonzaguinha, destaco, neste texto, a que se intitula “Um homem também chora (Guerreiro Menino)” e o leitor poderá ouvi-la por inteiro abaixo. Aqui registro uma parte dos seus versos: "Um homem também chora/Também deseja colo/Palavras amenas/ Precisa de carinho/Precisa de ternura/Precisa de um abraço/Da própria candura/ Guerreiros são pessoas/Tão fortes, tão frágeis/Precisam de um descanso/Precisam de um remanso/Precisam de um sono/Que os tornem refeitos." Gonzaguinha foi um astro nos seus dias. E continua brilhando...


O profeta Elias (século IX a.C) foi um gigante do Velho Testamento; sua vida se assemelhava a um passeio de montanha russa. Lá em cima nas alturas, lá embaixo nos buracos profundos. Uma gangorra de movimentos imprevisíveis, subindo e descendo, revelando realizações monumentais e tristezas destruidoras. Fortaleza para desafiar e vencer, pelo poder de Deus, 450 profetas de baal; fraqueza para fugir de Jezabel, uma mulher ímpia que tinha sob o seu controle o moralmente fraco marido Acabe, rei do reino do Norte (I Reis 16.29-34).

Pela sua palavra, os céus retiveram as chuvas durante longos anos e a terra de Israel foi duramente castigada (I Reis 17.1). Pela sua palavra, as chuvas caíram dos céus abundantemente e a vida voltou (I Reis 18.41). Competiu numa corrida contra os cavalos do rei Acabe e jamais foi ultrapassado por eles! Nada mais que um milagre! (I Reis. 18.45-46). Não experimentou a morte física, pois foi trasladado ao céu e, séculos depois, junto com Moisés, foi visto pelos discípulos – Pedro, Tiago e João - que acompanharam o Senhor Jesus no extraordinário evento da transfiguração (Mateus 17 1-8).

Mas Elias não era um deus, era um homem, um homem simplesmente, e chegou o dia em que a sua humanidade aflorou; a tristeza chegou, o desânimo o paralisou, a decepção o abateu, as batalhas contra a idolatria e a apostasia do seu povo de Israel e contra as opressões e injustiças que jorravam do palácio e do trono esgotaram as suas forças e o fizeram desistir de tudo. Buscou a solidão como refúgio. Estava massacrado pela idade, pelo cansaço, esvaziado de esperança. A depressão não o poupou e ele foi vencido pelo medo. Desejou a morte e pretendeu ir ao encontro dela. Não é difícil supor que, como na música de Gonzaguinha, Elias tenha chorado, demonstrando assim que “um homem também chora” e deixa de ver qualquer sentido na vida. Pelo menos nas minhas fraquezas eu posso afirmar que sou semelhante a Elias.

As fraquezas tiram a alegria do rosto e apagam o sorriso dos lábios. Desanimado e cabisbaixo, “falando de lado e olhando pro chão”, não há quem possa servir de vitrine para o Evangelho da Graça; amargurado e decepcionado não há quem possa refletir em sua vida a vida abundante que Jesus disponibilizou para os Seus. Assim estava o profeta Elias, afundado na desesperança, desejando e esperando a morte. Mas Deus, graças a Deus, tinha outros planos para o Seu filho amado.

A primeira ordem de Deus para Elias foi: “Retira-te...”, ou seja: sai desse tumulto, afasta-te dessas estruturas tão pesadas e tão exigentes, sai desse sistema do mal; sai, até mesmo, do seu ministério, e descanse. O carinho de Deus fez as reservas necessárias para as férias do Seu profeta. “Um homem também chora/também deseja colo/Palavras amenas..." “Deus é bom.” Aleluia! Apesar da seca que abrasava a terra, Deus manteve perenes as águas cristalinas da torrente de Querite.

Longe de tudo e de todos, a sós com Deus, lá estava o profeta escondido, com a sede saciada e os pés mergulhados nas águas refrescantes. Guiados pelo “GPS” de Deus, os corvos voavam no céu, indo e vindo, trazendo alimentos – pão e carne - para Elias. “Guerreiros são pessoas/Tão fortes tão frágeis/Precisam de um descanso/Precisam de um remanso... Esta poderia ter sido a trilha sonora da vida de Elias. Pode ser a trilha sonora da minha vida e da vida de tantos amigos e irmãos em Cristo que, bondosamente, me suportam. Não são poucos os que, mesmo na Igreja cristã, precisam de um descanso e de um remanso.

A bondade e o carinho de Deus colocaram Elias em primeiro lugar, acima, até mesmo, do seu ministério profético; largue tudo, pare tudo, vá para Querite e descanse, simplesmente descanse. “Guerreiros precisam de um sono/ Que os tornem refeitos...”. Água da torrente, pão e carne trazidos pelos corvos que voavam no céu. Providências de Deus para que o Seu profeta fosse fisicamente alimentado. Escondido do mundo, a sós com Deus, em oração, meditação e comunhão, espiritualmente alimentado; tudo o que era necessário para que a fé, o ânimo e o vigor físico e espiritual de Elias fossem totalmente restaurados e fortalecidos. Elias foi refeito pela graça, pelo carinho, pela bondade e compreensão de Deus para o seu momento de fraqueza.

Falo como membro de uma Igreja cristã. Estou cansado; cansado de ouvir sermões que insistem em fazer comparações entre a minha vida e a vida do grande apóstolo Paulo. Nessa direção, não é raro que os pregadores mencionem o nome do apóstolo dezenas de vezes e reservem para Jesus uma ou nenhuma citação. Sim, eu gostaria muito de ter a bravura do grande apóstolo, mas eu, nem de longe, me assemelho a ele. Estou cansado e, neste momento, gostaria de ouvir e preciso ouvir (e sei que a Igreja também), que o meigo Jesus, bendito seja o Seu Santo Nome, mantém inalterado o seu convite gentil: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (Mateus 11.28-30). É Jesus dando atenção à nossa humanidade e nos convidando para “a torrente de Querite.” Eu quero ir para Querite.

Sim, eu gostaria de ser como Davi, de possuir a fé, a força e a coragem que ele tinha para desafiar e vencer Golias, para lutar contra ursos e leões e, também, de ter os dons que Deus lhe deu para tocar harpa e compor salmos de louvor e clamor. Mas, eu sou apenas Marcos e, somente, me assemelho a David na sua medrosa fuga para a caverna de Adulão. Gostaria muito que os pregadores do Evangelho da salvação em Cristo Jesus compreendessem que, de vez em quando, é imprescindível que o rebanho que Deus lhes confiou seja conduzido, sem constrangimentos e sem complexos de culpa, até Querite, que refresque os seus pés na torrente cristalina e se alimente da provisão de Deus que chega no tempo certo por meio dos corvos que voam no céu. Elias não sabia de onde e como os corvos obtinham o pão e a carne de cada dia, mas sabia que, em Querite, nada lhe faltaria. Eu quero ir para Querite.

Eu sei, em meu coração, que sempre fui um servo inútil e que agora, mais do que nunca, nada tenho para oferecer a Deus e à Sua Igreja senão a minha humanidade cheia de fraquezas. Mas sei, também, que o Bondoso Deus não me chamou para ser Paulo, o bravo apóstolo, nem Davi, o corajoso e confiante guerreiro de Israel e, tampouco, o talentoso harpista e compositor de Jerusalém.

Tenho a confiante certeza de que se Deus quisesse que eu fosse igual ao apóstolo Paulo com toda a sua bravura, ou ao valoroso Davi, Ele, Deus mesmo, na Sua plena sabedoria e compaixão e no Seu irresistível poder concederia a mim as mesmas características e as mesmas condições que concedeu aos Seus dois filhos amados e tão especiais. Eu sou fraco e preciso ser refeito na torrente de Querite. Eu quero ir para Querite, preciso ser levado até lá pela misericórdia de Deus ou pela bondade dos que são responsáveis diretos pelo pastoreio do rebanho de Cristo, muitas vezes tão sedento e tão cansado. Esqueçam Paulo por um momento e fixem suas mentes e corações no Supremo e Bom Pastor. A Igreja cansada, constrangida e enfraquecida, física e espiritualmente, precisa descansar e ser refeita em Querite.

Depois de Querite, Deus ordenou a Elias que seguisse para Sarepta, pois lá estava a sua missão. No próximo texto, se Deus permitir, também refeitos como Elias, seguiremos para Sarepta. Antes, porém, desfrutemos de Querite! Deus é bom e deseja o nosso bem. Ele sabe que desejamos ir para Querite. Que assim seja! Aleluia! Amém. 

Pb. Marcos Vieira

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