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A alegria da contemplao de Deus

 Mensagem do blog: abarcadecristo

“Eis que envio sobre vós a promessa de Meu Pai; permanecei, pois na cidade, [Jerusalém] até que do alto sejais revestidos de poder.” (Lucas 24.49).

Sou um confesso admirador da obra escrita de Santo Agostinho (354 -430 d.C.) e, com raríssimas exceções, não concluo meus estudos e reflexões sobre os textos da Bíblia Sagrada, sem, antes, buscar tranquila e atenciosamente as conclusões do extraordinário teólogo cristão a respeito do texto analisado. De maneira muito especial e particular, considero imprescindível fazer esta busca quando se trata de tentar entender, ainda que limitadamente, o mistério da Santíssima Trindade que é ponto base da fé cristã. Dentre os vários tratados teológicos de Santo Agostinho, o que mais se destaca, segundo a maioria dos estudiosos, é aquele que tem por título “A Trindade”- Editora Paulus, 1995.

Para compor os quinze livros dedicados ao tema da Santíssima Trindade, todos contemplados na obra citada, Santo Agostinho se dedicou aos estudos e à escrita com afinco e humildade durante dezenove anos, desde os quarenta e nove anos até os sessenta e oito anos de idade. Não é pouco tempo. Ao concluir o seu trabalho, o mestre da teologia cristã justificou a longa e cuidadosa duração da sua elaboração: “Não existe assunto a propósito do qual o erro possa ser mais perigoso, a investigação mais árdua e a descoberta mais fecunda.” Sobre este monumental tratado, vários e vários estudiosos de diferentes origens e de divergentes posicionamentos religiosos e eclesiásticos se manifestaram; uma dessas manifestações, de conceituadíssima origem, é a que se segue: “É o monumento mais excelso da teologia acerca do augusto mistério da Santíssima Trindade.”

Tem-se como lenda, ou não, uma experiência vivida por Santo Agostinho logo no início da sua empreitada, que lhe serviu como advertência das dificuldades que encontraria no estudo da Santíssima Trindade. Habitualmente, o teólogo caminhava na praia de Tirreno, um prolongamento do mar Mediterrâneo, na costa oeste da Itália. Certa vez, no seu costumeiro passeio à beira-mar, encontrou uma criança que se ocupava de transportar, com uma concha, a água do oceano para um pequeno buraco cavado na areia. Agostinho, espantado diante dessa vã tentativa, questionou a criança sobre a impossível tarefa que procurava executar. A criança, talvez um anjo, ou não, lhe respondeu: “Seria mais fácil para mim fazer o mar entrar neste buraquinho do que para ti explicar a mínima parcela do mistério da Trindade.”

Se, mesmo para um teólogo como Santo Agostinho, a tarefa de expor a doutrina da Trindade era uma tarefa extremamente difícil, quase impossível, o que se dirá das dificuldades que nós teremos que vencer para entendermos um pouco deste imenso mistério? Mas, se a nossa inteligência não for suficiente para o compreendermos, resta-nos, tão somente, apegarmo-nos à fé, até que brilhe em nossos corações e mentes a Luz daquele que disse pela boca do profeta: “...Se não crerdes, não entendereis.” (Isaías 7.9). A fé sempre vai mais longe, bem mais longe.

É possível que essas dificuldades sejam os motivos pelos quais o tema da Trindade ande tão distante das pregações evangélicas e, principalmente, nas Igrejas protestantes herdeiras da Reforma do século XVI. A Santíssima Trindade e a Pessoa do Espírito Santo são temas que parecem esquecidos dos púlpitos evangélicos. Muito pouco, ou quase nada, se fala a respeito da Pessoa do Espírito Santo e do Seu ministério na vida do crente e na vida da Igreja. Essa distância do ensino e dos púlpitos dos temas da Santíssima Trindade e da ação e unção do Espírito Santo é um perigo real.

Para não expor a Sua pequena Igreja a esse perigo fatal, logo após o milagre da ressurreição, Jesus a reuniu e determinou que ela não se lançasse à sua missão, até que do alto fosse revestida de poder e isto, sabemos nós, tinha tudo a ver com o derramamento do Espírito Santo que aconteceria pouco mais à frente no dia da festa do Pentecostes, conforme registrada em Atos dos Apóstolos 2. Estava determinado, portanto, que a Igreja, sem o poder do Espírito Santo e sem os dons espirituais por ELE concedidos aos crentes no Senhor Jesus Cristo, estava fadada a morrer ou, talvez, a nem sequer nascer. É o realismo deste poder que caracteriza a doutrina da presença do Espírito Santo na Igreja e nos corações dos salvos que não duvidam da Bendita Palavra de Deus: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (I Corintios 6.19).

O realismo deste poder caracteriza, também, a presença da força transformadora do Espírito Santo nos corações e nas Igrejas. Sem o poder do Espírito e sem a Sua presença, fica impossível acolher, de verdade, o Evangelho. É assim que a Bendita Palavra de Deus nos ensina: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Romanos 8.9) Ou a Igreja busca incessantemente se revestir do poder do Espírito Santo e da Sua força transformadora, ou jamais chegará a bom termo no exercício da sua missão. “Permanecei até que do alto sejais revestidos de poder.”

Ao contrário desta busca que produz tranqüilidade, sabedoria, discernimento e lucidez, as pesadas e, quase, insuportáveis estruturas eclesiásticas deste tempo presente ofuscam e emperram a pregação e a aceitação do que é essencial na mensagem do Cristo crucificado e ressurreto. A esta mensagem, a Bíblia chama de “simplicidade do Evangelho.” Os participantes do culto cristão e a Igreja não se alimentam de sermões técnicos, elaborados com maior ênfase na estrutura teológica; a Igreja carece e anseia sempre por mensagens que lhe falem ao coração, que lhe ensinem a desfrutar da alegria da contemplação de Deus no culto, que lhe ajudem a perceber a presença do Espírito Santo no meio da congregação que se reúne para louvar e adorar. “permanecei até que do alto sejais revestidos de poder.”

Como falar da alegria da contemplação de Deus, se a Bíblia exclui energicamente qualquer possibilidade de Deus poder ser visto com olhos corporais? Jesus assegurou-nos que chegará o dia em que veremos a Deus: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” (Mateus 5.8) É natural que aguardemos a chegada deste dia com grande expectativa e, até, com certa ansiedade.

Jesus transformou essa impossibilidade numa probabilidade quando tratou deste tema com Filipe. Eis o diálogo esclarecedor: “Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” Disse-lhe Jesus: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não Me tendes conhecido? Quem Me vê a Mim vê o Pai; como dizes tu: mostra-nos o Pai?” (João 14.8-9). Filipe olhava, mas não via. Acontece conosco, ainda hoje. Participamos do culto cristão na Assembleia dos Santos, na Igreja; a Bíblia assegura e nós cantamos crendo que “Deus está no templo”, que Jesus se assenta ao nosso lado e junta a Sua voz às nossas vozes nos louvores a Deus e, como Filipe, na maioria das vezes, olhamos, mas não vemos. A missão visível do Verbo Eterno, o Filho, consiste em conduzir os salvos à contemplação de Deus, o Pai. Aquele que crer nisto, poderá elevar-se e levar outros à contemplação desse augusto mistério, totalmente convencido de que a vida cristã é trinitária, já que é cristã.

O pedido e o desejo de Filipe são reveladores; ele desejou e pediu uma exposição imediata do próprio Deus. Nós, também, desejamos isto, embora, talvez, não tenhamos coragem de expressar com palavras, como fez Filipe. Parece-me certo que, desde o tempo do ministério terreno de Jesus até o tempo presente, todos os que tiveram a alegria da aceitação do Evangelho, anseiam pelo dia em que verão a Deus como Ele é, em inimaginável esplendor e Glória transcendente. Todos ansiamos pela visão de Deus. Este anseio será satisfeito. Aleluia!

Aqui e agora, na comunhão dos Santos e na unidade do Espírito Santo, podemos desfrutar da alegria da contemplação de Deus se nos envolvermos definitiva e incondicionalmente com a Pessoa de Jesus e adotarmos, como regras de vida, os Seus ensinos, o que não é uma empreitada de fácil execução. Somente o Espírito Santo pode realizar em nós este querer e este realizar. Frei Tomás de Kempis (1380-1471), monge agostiniano, foi adequadamente denominado “o cristão mais piedoso do pietismo medieval.” No seu extraordinário livro “A Imitação de Cristo”- Círculo do Livro – 1964, que permanece atual embora tenha sido escrito há cerca de cinco séculos, ele trata do difícil tema da Santíssima Trindade e, especificamente, sobre a unidade do Deus Pai com o Deus Filho.

O seu pensamento conclusivo e manifesto numa poesia de sua autoria esclarece-nos sobre a real possibilidade de contemplarmos a Deus, se, primordialmente, conhecermos e entendermos as Palavras de Jesus: Eu Sou o caminho para Deus:/ Eu não vim para iluminar um caminho,/abrir uma trilha para que você/Possa simplesmente seguir meus passos, perseguir/ minha sombra/ como um prêmio que se conquista facilmente./ Minha vida revela a vida de Deus,/ a soma de tudo que Ele é e faz./ Como podem vocês, os filhos da noite, encarar-Me e entender/ Meu caminho como simples estrada?/Meu caminho passa pelo Getsêmani, a cruz/ E forte rejeição acortinada em agonia./Meu caminho para Deus abarca a maior perda:/Seu caminho para Deus não é Meu caminho, mas Eu mesmo./ Qualquer outro caminho é um atoleiro, ou fraude./Eu estou só: Eu Sou o caminho para Deus. Nós, os que confessamos a Jesus como Senhor e Redentor, não somos “filhos da noite”, mas “Filhos da luz” e santuário do Espírito Santo, e, como tais, podemos entender e crer que, em Jesus e ajudados pelo Espírito Santo, nos é concedida a benção da alegria da contemplação de Deus. Esta alegria e esta contemplação são sinais da antecipação da consumação do Reino Eterno de Cristo que já é uma presença concreta em nosso meio e em nós. “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai Se agradou em dar-vos o Seu Reino.” (Lucas 12.32) Grandiosa verdade, mas como nos disse o profeta Isaías, “se não crermos não, entenderemos”, as conclusões não podem ser outras: (1) não nos falte nunca a alegria do culto; (2) não nos falte, no culto, a presença do Espírito Santo que nos ajudará a desfrutar da alegria da contemplação de Deus; e (3) permaneçamos firmados na fé, “até que do alto sejamos revestidos de poder.” Até que volte o Redentor. Amém.