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Nas alturas

“Mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Isaías 40:31) 

Palavras não são necessárias para se provar que existem o sofrimento e o mal no mundo. Quaisquer tentativas nessa direção provariam que elas nada fariam senão empalidecer a realidade. Em especial, o sofrimento do, aparentemente, inocente impele, desde sempre, o homem Jó a destacar o problema do “porquê” e do “para quê”.

De maneira mais aguda e mais amarga, esta questão vem à tona quando se relaciona ao sofrimento de crianças. Não somente porque a criança é de fato inocente, mas porque a criança se vê abandonada à dor, sem a mesma capacidade que o adulto tem de se distanciar da fonte desse mal, por meio da revolta ou da autoentrega consciente de sua absoluta incapacidade de reação. Não é por outra razão que o sofrimento das crianças foi classificado como “o mal absoluto”

Esta classificação tornou-se conhecida num grito de protesto de Albert Camus (1913-1960), escritor franco-argelino, sempre às voltas com o sofrimento humano, prêmio Nobel de Literatura em 1957, que muito cedo contraiu a tuberculose que frustrou vários projetos de sua vida. Além disso, muito cedo, também, experimentou o gosto amargo da morte de seus queridos. O seu grito de protesto se deu quando “viu” o martírio das crianças inocentes da Judeia, massacradas e condenadas à morte pelo rei Herodes logo após o nascimento de Jesus. Neste ato de “ver”, Albert Camus “viu”, também, o trauma da vida e da morte do próprio Jesus de Nazaré. Então, ele gritou: “Hei de recusar até a morte amar esta criação em que as crianças são torturadas.

É impossível não perceber que tudo que existe de mal no mundo, que todo o sofrimento humano se converte em argumento contra Deus, em rocha do ateísmo. O sofrimento humano atingiu de forma aguda o Senhor Jesus, quando, na cruz, gritou desesperado: “Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste?” (Mateus 27.46). Este grito autentica a humanidade do Verbo Encarnado, pois, para que Deus fosse homem, era absolutamente necessário que o desespero fizesse parte dos Seus sentimentos. O desespero é próprio do homem, jamais de Deus.

Em oposição a todo e qualquer argumento contra Deus, apesar da realidade do sofrimento humano, nós cristãos precisamos e devemos trilhar o caminho da fé na graça de Jesus e acreditar que, em seu conjunto, este mundo em que vivemos é o melhor dos mundos possíveis. Embora não possamos entender plenamente, é neste mundo que Deus Se revela e Se manifesta, fazendo tudo de acordo com a Sua vontade que é “… santa, boa, agradável e perfeita.” (Romanos 12.2), pois “No céu está o nosso Deus e tudo faz como Lhe agrada.” (Salmos 115.3).

Santo Agostinho (354-430 d.C.) nos ensinou que esta fé na graça de Jesus nos leva bem mais longe do que a nossa sabedoria humana, nossa ciência, nossa razão, nosso discernimento, ou seja, todos os nossos recursos de análise e de conclusões. É por isto que, como cristãos, podemos aceitar a vontade de Deus como “boa, agradável e perfeita” e a felicidade de Deus em “fazer tudo como Lhe agrada.” E isto sem anularmos o nosso conhecimento e a nossa crítica sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial; os campos de concentração do nazismo; Hiroshima; a Sibéria de Stálin; Stalingrado; tragédias posteriores a 1945 no Congo e no Vietnã e as desgraças de cada dia. Hoje nos alarmamos com a epidemia do vírus Ebola, dizimando vidas e mais vidas no continente africano, deixando rastros de sofrimento, sem que a ciência possa detê-la. Estas desgraças não escolhem as suas vítimas. Coisas da humanidade impotente, coisas aqui debaixo, coisas da terra.

Somente descansando nesta fé em Jesus que nos leva bem mais longe, podemos confiar e aceitar a verdade de um texto do Novo Testamento que confirma a dupla realidade deste mundo em que vivemos, a realidade dos justificados em Cristo e a realidade dos ímpios: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no maligno.” (I João 5.19).

Por sermos de Deus, temos a nosso favor a singular promessa de, a exemplo da águia, deixar as coisas aqui debaixo e voar nas alturas, analogia para nos fazer entender que os males deste mundo onde estão os vales da sombra da morte jamais serão suficientes para nos aniquilar, para nos afastar do firme propósito de Deus que atingirá o Seu clímax na consumação do Reino Eterno de Cristo. A Barca de Cristo navega neste mundo que jaz no maligno, mas não perde o seu rumo sempre na direção do porto da eternidade e este é, também, o nosso porto de destino.

Por que a comparação com a águia? Trata-se de uma ave de rapina, ágil, forte, capaz de superar todas as dificuldades para se manter alimentada e livre de possíveis predadores. Tem visão acurada, nítida, capaz de identificar um pequeno roedor a 500 m de distância; mede 1,1 m de comprimento da ponta do bico até a ponta da cauda; sua envergadura – medida da ponta de uma asa até a ponta da outra asa quando estendidas – pode chegar a 2,5 m. Adulta, chega a pesar 6 kg e pode tirar do chão e alçar voo com um animal de até 40 kg nas suas garras. Em voo é majestosa, alcançando uma velocidade de até 100 km/h.

É com este exemplo de força e majestade que o nosso Deus nos faz entender o Seu poder para nos ajudar a superar as lutas e os sofrimentos próprios deste mundo; a erguer a cabeça e “andar altaneiramente” (Habacuque 3.19) e a voar nas grandes alturas da nossa fé. O poder de Deus confere aos Seus filhos, justificados em Cristo, a determinação, a coragem e a inquebrantável vontade de desfrutar deste poder de Deus “que se aperfeiçoa na nossa fraqueza” (II Coríntios 12.9).

O exercício da fé não é uma atitude de fácil execução. Sempre de encontro à nossa capacidade de crer, vemos um mundo que caminha de mal a pior, repleto de corrupção política; de roubos descarados – quadrilhas de políticos se formam até para roubar ambulâncias –; de hospitais lotados com seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus morrendo sem remédios, amontoados como lixo nos corredores contaminados; mundo que, em grande parte, se confessa cristão, mas que desconhece a santidade do Nome de Deus e O pronuncia sem temor e tremor nas circunstâncias imorais e pecaminosas do dia a dia. Este é o mundo que os nossos olhos veem; o mundo que jaz no maligno; maligno que se apoderou de mentes e corações e produz mais e mais o caos, a cada dia pior.

Entretanto, é certo que do alto é mais fácil estender a mão. As mãos de Deus, lá dos altos céus, permanecem estendidas em favor dos Seus filhos para resgatá-los, fortalecendo-os nas aflições, protegendo-os e encorajando-os quando lhes sobreveem os males e os sofrimentos que são próprios deste mundo aqui debaixo. Nesta tragédia humana, Deus sustenta os Seus filhos, fazendo-os fortes e capazes de alcançar as grandes alturas, correndo e não se cansando ou caminhando sem fadiga; voando como águias fortes e majestosas! Assim será até que em triunfo recebamos “o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3.14). Amém 

http://abarcadecristo.wordpress.com/2014/08/03/nas-alturas/