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Onde encontrar Jesus

“Ora, entre os que subiram para adorar durante a festa, havia alguns gregos; estes, pois, se dirigiram a Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e lhe rogaram: Senhor, queremos ver Jesus.” (João 12.20-21) 

Oscar Wilde (1854-1900) nasceu na Irlanda; era escritor, poeta, dramaturgo, romancista, crítico severo da sociedade e um admirável pensador; era, também, um excêntrico que despertava curiosidades. Quando ingressou na Universidade de Oxford, os seus trajes esquisitos e o seu modo de ser chamaram a atenção dos catedráticos, e estes chegaram a duvidar da sua capacidade de ser bem sucedido no curso que pretendia. Os mestres então focaram acentuada vigilância no aproveitamento do estranho e tão diferente aluno.

Um dia, durante um exame de grego, exigiram que ele fizesse a tradução oral do capítulo 27 do livro de “Atos dos Apóstolos.” Não demorou muito e os professores, surpresos, manifestaram a admiração com a perfeição da tradução. Passaram então a questionar Oscar Wilde de como ele havia conseguido a façanha de dominar tão completamente a língua grega. Receberam como resposta uma ordem para que se calassem, porque ele queria saber como a narrativa terminava e, portanto, iria até o fim do capítulo.

Da sua vasta obra escrita, consta uma peça para teatro intitulada “Salomé” (1891), que contém um interessante diálogo entre o rei Herodes e um centurião romano sobre a ressurreição de Jesus. Quando Herodes recebeu a notícia de que Jesus havia ressuscitado reagiu: “Ele [Jesus] não pode fazer isso. Eu o proíbo de fazer isso. Não permito que homem algum ressuscite dentre os mortos. Achem esse homem e digam a ele que eu o proíbo de ressuscitar dentre os mortos.” Desnorteado, perplexo, surpreendido, o centurião ouviu, ainda, quando Herodes lhe perguntou: “Onde está esse homem?” A resposta do Centurião ao rei foi desconcertante: “Ele está em toda parte, meu senhor, mas é difícil encontrá-Lo.”

O texto completo, registrado no Evangelho segundo escreveu João capítulo 12, a partir do versículo 20 (que trata do desejo dos gregos), nos dá a entender que a resposta do centurião romano não pode ser totalmente descartada, ainda que registrada em uma literatura secular. Não é inteligente admitir que o que eles desejavam era simplesmente ver Jesus, pois para isto não precisavam da ajuda de Filipe. Bastava que acompanhassem o olhar da multidão e, facilmente, identificariam o Mestre que falava com autoridade, como ninguém ainda havia falado.

O que os gregos desejavam era um encontro, uma conversa, quem sabe um debate, sobre a verdade contida naquela “nova” religião que era anunciada e que exercia enorme fascínio sobre as multidões de judeus, na maioria das vezes por causa dos milagres, pão e peixe. Os gregos estavam sempre procurando a verdade e o faziam com diligência e incansável perseverança. Anos mais tarde, o Apóstolo aos gentios, dissertando sobre a mensagem da cruz, declarou que “… tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado…” (I Coríntios 1.22-23)

O Senhor Jesus ouviu de Filipe e André o que os gregos queriam e, aparentemente, não deu a menor importância ao fato; também, aparentemente, ignorou-os. Todavia, se os gregos buscavam a verdade e a sabedoria, haveriam de encontrá-las no discurso surpreendente que o Mestre fez a seguir; não só surpreendente, mas, também, de difícil compreensão e aceitação. Provavelmente, instalou-se uma crise nas mentes e corações dos discípulos quando o Senhor Jesus, ao abrir a Sua boca, referiu-se a duas realidades marcantes e sempre presentes na vida deles: “É chegada a hora” e “ O Filho do Homem.”(João 12.23)

Até aquele momento, “A hora” era revelada por meio de uma expectativa futura, como bem pode ser visto, de maneira muito clara, em diversos textos do Novo Testamento. Um dentre estes inúmeros textos, que descreve o ensino do Senhor Jesus sobre “a Luz do mundo”, assim se expressa: “Proferiu estas palavras no lugar do gazofilácio, quando ensinava no templo; e ninguém O prendeu, porque não era ainda chegada a Sua hora.”(João 8.20). “A hora”, tão aguardada pelo povo de Israel era aquela em que, sob a liderança do Messias, teria início a idade de ouro do pequeno e sofrido povo de Deus; aconteceria uma virada do tempo e Israel subjugaria os povos, as nações e tudo começaria com o aniquilamento do então opressor, o Império Romano.

O Israel contemporâneo de Jesus não tinha tropas adestradas para as batalhas ferozes e não dispunha de armas; o homem que se apresentava como o Messias enviado do céu estava longe de qualquer semelhança com um líder guerreiro; não se parecia em nada com o esperado e legítimo representante do “Senhor dos Exércitos.” Naquelas circunstâncias, quando o Senhor Jesus bradou que era chegada “A hora”, os Seus ouvintes, numa provável crise de fé quanto ao que ouviam, imaginaram os exércitos do céu descendo e varrendo a terra para submeter tudo e todos ao governo de Israel. O povo de Deus, mais uma vez, pensava equivocadamente na glória do engrandecimento humano. O Senhor Jesus pensava na Glória da cruz!

Encontra-se na profecia de Daniel a primeira referência a alguém, ainda desconhecido, como sendo “O Filho do Homem.” “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem…” (Daniel 7.13). No mesmo capítulo, o profeta revela uma assustadora visão dos poderes que governavam o mundo e oprimiam o Israel de Deus. Ele viu os assírios, os babilônios, os medos e os persas, que eram povos cruéis, impiedosos e sádicos nas suas ações de guerra e de dominação, que não escondiam a sua malignidade. Para descrevê-los, somente apelando para imagens de bestas selvagens, anormais e aterrorizantes: um leão com asas, um urso com três costelas entre os dentes, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças e, por fim, um animal espantoso, forte, com dentes de ferro e com dez chifres. O monumental capítulo 7 da profecia de Daniel é grandemente esclarecedor e, também, um dos grandes textos do Velho Testamento.

As visões continuaram e revelaram que “O Filho do Homem” era o novo e definitivo poder que se levantaria; era nada menos do que o Messias, o enviado de Deus, o “Deus conosco”, aquele de quem o profeta, por divina revelação, asseverou que “Foi Lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas O servissem; o Seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o Seu reino jamais será destruído.” (Daniel 7.14) Tudo isto estava contemplado nas duas citações do Senhor Jesus que, certamente, sacudiram a memória dos judeus e iluminaram o entendimento dos gregos que buscavam a verdade e que, para tanto, desejavam vê-Lo. Duas pequenas expressões que guardavam muitos séculos da História da Salvação. É chegado o Reino! Eis o Reino do “Filho do Homem!”, Eis que “É chegada a hora…!”

O Senhor Jesus sempre surpreendeu os que O ouviam e, ainda, nos surpreende com os Seus ensinos, muitos deles para nos mostrar quão difícil é andar no caminho estreito, seguir os Seus passos, ser um verdadeiro cristão. Os gregos desejavam vê-Lo no suntuoso templo de Jerusalém, na alegria da grande festa da Páscoa, nas rodas dos grandes debates filosóficos com os seus “holofotes” e, quem sabe, incluir nos seus currículos as conversas, as detalhadas discussões sobre a verdade com o grande Mestre judeu. Alcançar esses objetivos não seria tão difícil se Jesus fosse, apenas e tão somente, um grande Mestre disposto a exibir a Sua plena sabedoria. Contudo, “O Filho do Homem” se pôs a falar sobre a profundidade e a imensa grandeza da simplicidade do Santo Evangelho. Tudo o mais foi descartado, deixado de lado.

O Senhor Jesus continua desapontando aqueles que hoje desejam vê-Lo nos grandes eventos humanos, nas “tendas de milagres”, nos milionários templos onde se negocia a troca de vidrinhos de água “ungida” e outros amuletos, por dinheiro dos pobres distraídos e enganados; nas aglomerações televisivas onde “bênçãos” ilusórias são barganhadas por carnês de depósito bancário; a recomendação bíblica de entregar e consagrar os dízimos e as ofertas no altar, como parte do culto, foi deixada para trás. Há ainda aqueles que querem ver o Salvador nos espetáculos de “louvorzão” que estimulam comportamentos sem identificação com o Santo Evangelho. A multidão que pensa cultuar a Deus com pulos, danças, gritos, frenesi sem controle, desconhece a reivindicação divina de decência e ordem na adoração. Outros desejam vê-Lo nos “balaios” de irreverência e de linguagem imprópria nos quais não cabem o temor e o tremor diante do Deus que é Santo, Santo, Santo.

O que o Senhor Jesus ensinou difere de tudo isto e, para desapontamento geral, Ele esclareceu que “Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E se alguém me servir, o Pai o honrará.”(João 12.26). Era chegada “A hora” e o “Filho do Homem” estava a caminho da cruz; aproximava-se o início da Sua paixão, da Sua humilhação até a morte, do momento mais visível do Seu esvaziamento. Eis a lição final, o ensino definitivo: se eu e você, verdadeiramente, desejamos ver Jesus, devemos ir ao Seu encontro no caminho da cruz onde se revelam a Sua compaixão, a Sua humildade, o Seu desprendimento e, acima de tudo, o milagre do Seu amor . “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.”(Lucas 9.23) É verdade que Ele está em todo lugar, mas somente podemos encontrá-Lo e ouvir a Sua voz no caminho da cruz. Depois viveremos a Glória da ressurreição! Desejamos ver Jesus, desejamos ver Jesus, desejamos ver… desejamos… Amém.