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O vnculo da perfeio - Amars

 “Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus.” (Ezequiel 1.1)

“Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus.” (Ezequiel 1.1)


Dois rabinos conceituados, doutores da Lei, conselheiros, conhecedores de todas as nuances da religião de Israel, viveram em Jerusalém e possivelmente um deles foi contemporâneo de Jesus. Quando “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós”, as escolas desses dois sábios tinham grande influência no comportamento e no aconselhamento das pessoas e, até, no julgamento de pequenas causas. Um deles chamava-se Shamai (séc. I d.C.); o outro se chamava Hilel (séc. I a.C.- séc. I d.C). Eram personalidades bem diferentes, debatiam ardorosamente entre si, e as suas respectivas escolas usavam métodos e interpretações divergentes, cada uma projetando o pensamento do seu mestre.


Shamai sempre adotou uma posição rigorosa com relação à halachá que, em poucas palavras, é um tratado sobre a tradição legalista do judaísmo. Ele era um literalista em sua interpretação do Velho Testamento e se opunha a qualquer inovação, por menor e mais razoável que fosse, na prática religiosa de Israel. Não suportava os tolos e estes eram assim classificados de acordo com a sua exclusiva decisão. Hilel, ao contrário, tinha uma índole paciente, era conhecido como “o velho”, descendente da casa de Davi. Tinha paixão pelo estudo e, durante o seu tempo de academia, sem dinheiro para pagar a entrada, subia no telhado de onde acompanhava as aulas, suportando o frio intenso, às vezes ficando coberto de neve.


Registra a história que, certo dia, um soldado romano, entusiasmado com os preceitos morais do judaísmo, aproximou-se de Shamai e lhe confessou o seu enorme desejo de se converter. Tinha, entretanto, uma dificuldade intransponível para compreender e, muito mais, para cumprir tantos preceitos, regras e obrigações do judaísmo e, principalmente, como soldado, de se submeter às restrições de trabalho no Shabat, o sábado judeu. A seguir, tirou um dos pés do chão e propôs a Shamai que, enquanto ele aguentasse ficar nessa posição, o sábio lhe explicasse, apenas, o que era essencial para a sua conversão. Shamai desprezou o seu desejo, destacou a escravidão e a libertação de Israel do Egito, a peregrinação no deserto e o exílio na Babilônia; mencionou a luta, a consagração e as provações dos patriarcas, destacou, com incontido orgulho, a grandeza do templo em Jerusalém e o seu significado; por fim, o despediu dizendo-lhe que uma religião de história tão grandiosa não era para ele, que não passava de um tolo soldado romano.


Completamente desapontado, mas sem perder o ânimo próprio de um soldado romano, ele foi à procura de Hilel. Contou-lhe do seu desejo de conversão e da sua dificuldade, tirou um pé do chão e fez ao sábio a mesma proposta. Hilel, “o velho”, compreensivo e paciente, com o olhar bondoso disse-lhe: “Ama a Deus. O que é odioso a ti, não o faça a teu próximo. Pode colocar o pé no chão e descansar porque o resto é comentário.”


Como era comum, um dia o Senhor Jesus foi cercado por um grupo de fariseus que Lhe perguntou: “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? A resposta do Senhor Jesus foi: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: “amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos, dependem toda a Lei e os Profetas”. (Mateus 22.36-40) O fundamento do amor está presente nas duas respostas, de Hilel e do Senhor Jesus, mas são inquestionáveis a superioridade e o incomparável alcance da resposta do Filho de Deus.


Fica claro, como o sol do meio dia, que é impossível ser um cristão bíblico e verdadeiro sem subir, em primeiro lugar, o degrau do amor a Deus e, a seguir, o degrau do amor ao próximo. Enquanto navegam no mar tenebroso e ameaçador deste “mundo que jaz no maligno”, os passageiros da Barca de Cristo devem empregar o máximo esforço na busca dos recursos espirituais para o desenvolvimento da própria salvação; para se manter firmes até que possam ouvir e aceitar, sem desconversar, sem fugas e sem dissimulações, o supremo e suave, e no final das contas, o único mandamento: AMARÁS!


Tenho uma imensa admiração pelo profeta Ezequiel. Penso que, entre os homens, ninguém o superou na arte de amar. Lendo a sua estupenda profecia, é fácil “encontrá-lo” e comover-se com a sua contínua presença no meio dos exilados, junto às margens dos rios da Babilônia. O seu amor a Deus e ao seu povo fez nascer e florescer o mesmo amor entre muitos e estes, vivendo as mesmas angústias e as mesmas saudades de Jerusalém e do templo, amavam-se mutuamente.


Talvez estejam certos os estudiosos que afirmam ter sido o admirável profeta que, sem o templo e sem Jerusalém, sem os sacrifícios e sem as Santas convocações, instituiu a sinagoga para que o ensino e a aprendizagem da Lei de Deus não fossem interrompidos; também para que a comunhão entre os seus irmãos os fortalecesse, apesar do sofrimento no cativeiro e do abatimento que os impedia de cantar os cânticos de Sião. Aqueles exilados que permaneceram juntos, que se dedicaram ao estudo e se submeteram à voz do profeta, aprenderam o que parecia impossível em circunstâncias tão severas: abrigar nos seus corações e mentes uma grandiosa esperança e compartilhar este sentimento por meio do imperativo de Deus: AMARÁS!


O amor a Deus e ao próximo não é simplesmente uma virtude alcançada de maneira automática ou natural; é o resultado progressivo de uma vida transformada, cheia do Espírito Santo que derrama o amor de Deus no coração humano. Como tudo que é bom, o amor, também, se origina de Deus, como dádiva da graça. A arte de amar somente se realiza quando se está repleto, pleno do Espírito Santo de Deus e, aí sim, não é difícil compreender porque “o amor é o vínculo da perfeição.” (Colossenses 3.14). Lá na Babilônia, estava o profeta Ezequiel, cheio do Espírito Santo e disposto a mostrar com a sua vida o grande amor de Deus pelo Seu povo e o seu próprio amor a Deus.


Por amor a Deus ele suportou uma doída transformação na sua fisionomia quando ouviu: “Eis que fiz duro o teu rosto contra o rosto deles e dura a tua fronte, contra a sua fronte” (Ezequiel 2.8). O seu amor a Deus manteve-se firme! Por amor a Deus ouviu em reverente silêncio e submissão, a trágica notícia de que a sua esposa, a quem muito amava, lhe seria tirada: “...eis que, de súbito, tirarei a delícia dos teus olhos, mas não lamentarás, nem chorarás, nem te correrão as lágrimas. Geme em silêncio...” (Ezequiel 24.16-17). Ele permaneceu amando a Deus de todo o seu coração, amando, confiando e esperando. Para este extraordinário homem que soube amar, “os céus se abriram” e ele teve “visões de Deus”. Sobre ele estava sempre a mão do Senhor. Todas as suas ações eram impulsionadas pelo Espírito Santo e, por isto, o seu amor a Deus e ao seu povo fluía como fonte de água viva.


Dentre as visões que Deus lhe proporcionou, a mais impressionante foi “A visão de um vale de ossos secos” (Ezequiel 37.1-14). Em Espírito, Deus o levou até o vale e o deixou no meio de uma “montanha” de ossos humanos e sequíssimos. O mais estranho estava por vir: Deus determinou que ele anunciasse a vida no meio da morte consumada! A sua assembleia era um cemitério! Mas ele amava a Deus e quem ama a Deus, confia em Deus. E ele profetizou: “Ossos secos, ouví a Palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos secos: eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis.” (Ezequiel 37.4-5). Deus, que vela pela Sua palavra, fez a vida voltar. O cemitério foi vivificado e se pôs em pé um numeroso exército! Esta foi uma visão do que, no futuro, aconteceria com o povo de Israel que estava derrotado, “morto” no cativeiro.


Com amor renovado a Deus e ao seu povo, ele continuou anunciando a Salvação, uma fulgurante História que começou destacando a origem pouco recomendável da nação: “A tua origem e o teu nascimento procedem da terra dos cananeus; teu pai era amorreu, e tua mãe, hetéia”. (Ezequiel 16.3). Mas, e este é o “mas” de Deus, Ezequiel amou a Deus e ao seu povo; o povo amou a Deus e ao seu próximo; e, numa maravilhosa visão, mais uma, Ezequiel viu os céus se abrirem e contemplou a Cidade Santa, a Cidade de Deus reservada, desde os tempos eternos, para aqueles que aprenderam a amá-LO. “... e o nome da Cidade desde aquele dia será “Adonai Shammá” – “O Senhor está ali”. (Ezequiel 48.35)


Deus, o nosso Pai, não está a exigir que sejamos como Ezequiel... Entretanto, se desejamos verdadeiramente um lugar na Cidade Santa, na Cidade de Deus, não temos outra opção senão aprender e aplicar plenamente em nossa vida o supremo e suave mandamento, do qual dependem todos os outros: AMARÁS! Amém.