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Quando Deus envia Nat

 Nova postagem no Blog ABARCADECRISTO (http://abarcadecristo.wordpress.com/2014/04/13/quando-deus-envia-nata/).

“O Senhor enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre…” (II Samuel 12.1).

Av ou Ab é como se chama o quinto mês lunar do calendário hebraico e este é, também, de acordo com a tradição judaica, o mês mais triste do ano, no qual, respectivamente nos anos de 589 a.C. e de 70 d.C., foram destruídos o primeiro e o segundo templos de Jerusalém. Quando este mês começa, entre os judeus a alegria quase desaparece. As comemorações, quaisquer que sejam, são restringidas ou eliminadas e a tristeza se intensifica, mais e mais, até chegar ao seu ponto mais agudo no dia “Nove de Av”.

Naquele dia de meio-luto, o jejum é absoluto. Não se calçam sapatos; não se assenta em cadeiras; não se lava o corpo; não se dorme em camas macias; adiam-se as relações sexuais. Tudo o que produz prazer é afastado. Diminuem-se as luzes das casas e das sinagogas; lê-se o Livro das Lamentações de Jeremias. Hinos especiais de grande tristeza são entoados numa melodia sofrida, acompanhados de choros e suspiros. “Nove de Av” é o dia da dor maior, pois nada é comparável à visão ou à lembrança da profanação e destruição do lugar que o Deus de Israel escolheu para a Sua habitação no meio do Seu povo. A destruição dos templos foi o desastre mais devastador na história de Israel.

Levi Isaac de Berdichev (1740-1810) era rabino, judeu polonês, de biografia muito interessante. As suas canções de louvor a Deus descreviam as manifestações do “TU” divino e discutiam com Ele, questionando-O sobre o sofrimento do Seu povo de Israel e quase exigindo que Deus lhe dissesse o que, afinal, desejava dos Seus filhos. Acima de tudo, era um homem temente a Deus, reverente, devotado à sua vocação e ao seu ofício. As suas orações, marcadas pela sinceridade, faziam arrepiar os cabelos daqueles que o cercavam e as ouviam. Ninguém duvidava de que Deus o amava, compreendia-o com os seus incessantes questionamentos e o aceitava com aprovação e, principalmente, com divina paciência.

Levi Isaac de Berdichev tinha outra característica: era apaixonado pelo seu povo e o defendia em quaisquer circunstâncias, nem sempre se importando em ser razoável. Nos seus contatos com os seus irmãos judeus, empenhava-se para ver apenas as virtudes, as qualidades, o que de melhor havia em cada um. Sobre eles, só exaltava o bem, só destacava os valores positivos, só tinha olhos e ouvidos para o que era elogiável. Falhas, erros, descuidos, desvios não mereciam a sua consideração. No seu particular modo de pensar, se era judeu, era bom!

No dia “Nove de Av” de 1.801, Levi Isaac de Berdichev saiu a observar como a sua comunidade na Polônia estava vivendo o dia mais triste do seu calendário e, para a sua estupefação, encontrou um jovem judeu comendo e bebendo com alguns amigos. Com a voz suave e o tom compreensivo de sempre, perguntou ao jovem: “Certamente, meu bom jovem, você se esqueceu de que dia é hoje, não?” Respondeu-lhe o jovem: “Não, Rabino, não me esqueci. Hoje é o dia Nove de Av”. Espantado com a resposta, porém compreensivo e mantendo a voz suave, o Rabino lhe perguntou: ”Ah, então o meu bom jovem se esqueceu de que hoje não se pode comer nem beber e nem se alegrar, não?” Respondeu-lhe o jovem: ”Não, Rabino. Eu sei que hoje é dia de jejum absoluto e que é pecado comer, beber e desfrutar de qualquer prazer ou alegria.” Perplexo, mas ainda compreensivo e mantendo o tom suave, o Rabino lhe perguntou: “Ah, então o meu bom jovem está doente e não pode deixar de comer e beber por ordem do médico, não?” Respondeu-lhe o jovem: “Não, Rabino. Gozo de plena saúde, estou ótimo.” Completamente desconcertado, mas ainda compreensivo, o Rabino Levi Isaac de Berdichev ajoelhou-se, olhou para os céus, fechou os olhos e orou: “Graças, graças, graças Te dou, Ó Deus de Israel, e me alegro, pois Tu mesmo vês que os Teus bons filhos, mesmo quando pecam, recusam-se a mentir”.

Não se pode negar que o Rabino Levi Isaac de Berdichev era mesmo uma simpatia, uma bondade a toda prova e que estava entre os mais queridos e os mais populares líderes judeus do seu tempo. Entretanto, também, não se pode dizer que a sua maneira de tratar o pecado e o pecador era condizente com a Palavra de Deus.

Não existem soluções pluralistas e nem meios diversos para apaziguar ou contornar a ira santa de Deus que abomina o pecado e pesa sobre o pecador. Os profetas e os apóstolos, arautos da santidade de Deus e do Evangelho de Cristo, comprometidos com a verdade, jamais deixaram de anunciar que “… O Senhor julgará o Seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” (Hebreus 10.30-31).

Daquela ira santa há somente uma possibilidade de escape: JESUS. E ninguém mais. E nada mais. JESUS é o Caminho, o escape e, para andar nesse Caminho, são exigidas do pecador duas atitudes concretas: arrependimento genuíno e confissão sincera. Essas duas atitudes restauram a comunhão entre o pecador e Deus e, dessa restauração, resultam o pleno perdão e a perfeita e completa paz. Deus afasta a Sua ira santa, manifesta a Sua maravilhosa graça e declara de forma definitiva: “Eu, Eu mesmo, Sou o que apago as tuas transgressões por amor de Mim e dos teus pecados não Me lembro.” (Isaías 43.25). Assim é o Evangelho do Senhor Jesus Cristo, assim opera a graça inefável de Deus no coração do pecador que se arrepende e confessa os seus pecados a Deus e somente a Deus.

Os textos de II Samuel 11 e 12 contam a monstruosidade cometida pelo rei Davi contra a família de um homem valoroso, de caráter inquebrantável, soldado honrado do exército de Israel, que se chamava Urias e era casado com Bate-Seba, mulher atraente, de grande beleza. Enquanto Urias lutava na guerra de Israel contra os amonitas, Davi, valendo-se da sua autoridade de rei, atraiu Bate-Seba ao palácio e adulterou com ela, engravidando-a. Como um abismo chama outro abismo, um pecado sucede a outro pecado, Davi arquitetou planos para esconder as conseqüências da maldade do seu coração e do seu pecado contra Deus. Todos os planos falharam. A mão de Deus começava a pesar. Davi determinou o assassinato de Urias.

Neste cenário de miséria humana, de depravação moral, abuso de autoridade, mentira, traição, adultério, dissimulação e assassinato, Davi permanecia com a sua consciência cauterizada, com os seus olhos nublados e com o seu coração envolvido numa falsa paz e, possivelmente, gozando de uma sensação tão agradável quanto pecaminosa, de realização pessoal. Podia pensar enquanto via os dias indo e vindo: “sou o rei e o rei pode tudo.” Mas, e esse é o “mas” de Deus, nessa aparente calmaria do mal, o Senhor do Céu, o Santo de Israel, envia o profeta Natã a Davi.

O profeta Natã em nada se parecia com o rabino Levi Isaac de Berdichev. Mensageiro de Deus, Natã era a boca de Deus para falar as palavras de Deus e para conduzir Davi ao difícil e sofrido caminho da identificação e do reconhecimento dos seus pecados, do doloroso arrependimento e da amargurada confissão. Nesta árdua missão, Natã começou a sua conversa com Davi, contando-lhe uma das mais belas parábolas registradas na Bíblia Sagrada; uma história construída em torno de um homem rico, um homem pobre e uma cordeirinha, que pode e deve ser lida em II Samuel 12.1-6.

O turbilhão que aconteceu no coração de Davi foi devastador, mas a inexplicável e maravilhosa graça de Deus prevaleceu. Deus honrou a Sua palavra, apagou as transgressões de Davi e dos seus pecados Se esqueceu. O arrependimento e a confissão, atitudes genuínas do rei Davi, podem ser conhecidos no monumental Salmo 51, uma composição elaborada sob forte tensão emocional e com incomparável carga de tristeza. A consciência do pecado é uma experiência arrasadora na vida daqueles que, verdadeiramente, temem a Deus.

Quando Deus envia Natã, o pecado é revelado. É este pecado revelado que precisa ser reconhecido pelo pecador, que precisa ser confessado e abandonado radicalmente. Se o arrependimento e a confissão não forem acompanhados de um desejo sincero e resoluto de abandonar a prática pecaminosa, o pleno perdão jamais acontecerá. É compreensível que, consciente do seu pecado, o pecador se sinta mais confortável com a admoestação de alguém como o Rabino Levi Isaac de Berdichev. Neste caso, no entanto, a cura não acontece, a comunhão com Deus e a restauração com o ofendido, se houver, não se restabelecem.

É por esta razão que Deus mantém na Barca de Cristo alguns Natã. É isto mesmo! Homens com o dom de profecia, autênticos Natã contemporâneos, fazem a travessia conosco! Nós, os passageiros da Barca, precisamos ser exortados, admoestados, corrigidos, confrontados e reconduzidos ao arrependimento genuíno e à confissão sincera sempre que fraquejamos e pecamos. Essa recondução acontece quando Deus envia Natã e nós o ouvimos.

Não fuja de Natã e nem rejeite o que ele, da parte de Deus, tem para lhe dizer. Precisamos de Natã e continuaremos precisando, até que volte o Redentor. Amém. 

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