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Espinheiro produz sombra?

Mais uma mensagem do Presb. Marcos Vieira em seu blog "abarcadecristo". (http://abarcadecristo.wordpress.com/)

 

“Respondeu o espinheiro às árvores: Se deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra”. (Juízes 9.15)

 

“Histórias do Tio Janjão – Lindas Histórias do Tempo em que os Bichos Falavam!”… Era assim que se chamava um programa infantil de enorme audiência no rádio, no Rio de Janeiro, lá pelos anos de 1956/58. Naqueles tempos, meninos soltavam pipa, faziam roda de pião, jogavam bola de gude; as meninas brincavam de boneca e casinha. Quando se juntavam, meninos e meninas brincavam de roda, de passar o anel. A vida seguia mais ou menos devagar pela paisagem da inocência. O tempo, sem pressa, chegava no tempo certo e o tio Janjão se valia das fábulas de Esopo e de outras menos famosas, para ensinar lições de bom caráter, de honestidade, de lealdade, de obediência, de respeito, de amor ao próximo, de convivência, de cooperação, de solidariedade e pontuava sempre, com grande alarde, o valor do trabalho e a excelência dos estudos. Em volta dos aparelhos que “falavam” e chiavam, com as suas enormes e frágeis válvulas que acendiam, esquentavam e queimavam, as crianças ficavam maravilhadas com as falas dos tigres, leões, macacos, corujas, zebras, ursos e outros, muitos outros. No meio daquela bicharada, interagindo com ela e com ares de quem mandava de verdade, estava sempre o inconfundível e bonachão tio Janjão, com a sua voz meio rouca e agradável. Parecia que ele, vez ou outra, fazia cara feia para o bicho preguiça, mas talvez fosse só impressão… Na floresta reinava a paz; nas casas, no dia-a-dia das famílias, as mães, principalmente, não deixavam que os preciosos ensinos do tio Janjão passassem despercebidos. Saudosos tempos de saudáveis entretenimentos! Como um carrossel a girar, os dias iam e vinham, mas as lições ficavam durante meses, possivelmente anos, graças ao método de ensiná-las e aplicá-las, com a insuperável ajuda de um conto atraente.

Agora eu saio do mundo fantástico que encantava a minha meninice e entro no universo da narrativa bíblica.

Na Bíblia Sagrada, são muito utilizados os recursos de uma história construída, de uma parábola elaborada ou de uma fábula imaginada, para facilitar a compreensão dos elevados desígnios de Deus. Tais recursos são meios divinamente inspirados, que ampliam as possibilidades do conhecimento humano acerca do Santo de Israel e dos mistérios da chegada e da consumação do Seu Reino Eterno. Compreensão e conhecimento são dádivas do céu aos homens e mulheres, que têm prazer na leitura e na meditação na Lei do Senhor e que imploram e obtêm a instrução e a iluminação do Espírito Santo; a estes, o Senhor concede que, com os olhos da fé, vejam e desfrutem o cumprimento do eficaz compromisso do nosso Deus e Pai: “…assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.”(Isaías 55.11). Entre os que amam a Bíblia e, portanto, têm prazer na sua leitura e meditação, não há quem não conheça a bela história do homem rico, do homem pobre e da cordeirinha, que o Profeta Natan contou para trazer de volta à realidade os olhos nublados e o coração pecador do rei Davi e fazê-lo arrepender-se da monstruosidade praticada, conforme registrada em II Samuel 11 e 12. Jesus, o Mestre por excelência, possuía todos os meios de persuasão, de convencimento e de argumentação; dispunha de todas as opções que desejasse para encher a mente e o coração dos Seus discípulos e da Sua Barca, de compreensão e conhecimento da Verdade e, ainda assim, tantas e tantas vezes, abriu a Sua boca em parábolas de rara beleza e significado. Essas fontes de inesgotável sabedoria, guardadas como pérolas nos Evangelhos sinóticos, inundam de compreensão e conhecimento os que amam a Jesus e a Sua Palavra. São tesouros que não precisam de mapa, mas que precisam ser buscados com a avidez dos sedentos e famintos pelo Pão e pela Água da Vida. Todos os que se lançam nesta busca, com a certeza de que serão saciados, encontram abertas as portas da despensa do Reino do Céu, onde são abundantes as maravilhas da multiforme graça de Deus.

Considera-se que a fábula mais antiga de que se tem conhecimento é a que consta do texto de Juízes 9.7-21 sob o título não canônico de “O Apólogo de Jotão”. Presumivelmente, foi utilizada no período entre 1.200 e 1.020 a.C. e esse era um tempo em que “… não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto.” (Juízes 21.25). Época semelhante a tantas outras em que o desatento povo de Deus experimentava ciclos repetitivos de trevas espirituais, de opressão física, de arrependimento, de clamor, de libertação e de refrigério. O Israel inconstante olhava para IAHWEH, mas piscava para baal e para astarote, deuses cananeus. E o ciclo recomeçava… Deus abomina piscadelas. Paradoxalmente, foi naquele tempo de ciclos e de marcante inconstância religiosa, de escolhas erradas e de decisões tolas, que Deus promoveu na História da Salvação, no tempo do Velho Testamento, o primeiro movimento visível do ministério do Espírito Santo. Nesse movimento, Israel foi compelido a dar o primeiro passo na direção da compreensão e do conhecimento da missão da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Homens reprovados foram separados por Deus e, por Sua vontade e pelo Seu poder, foram feitos juízes e postos acima de uma desorganização de tribos. Acerca destes juízes, a Bíblia não deixa dúvidas: o Espírito do Senhor veio sobre eles! O Sopro irresistível do Deus Espírito Santo começou a ser compreendido e conhecido, vagarosa e progressivamente.

Gideão, um dos juízes de Israel, era um homem de fé vacilante. Enquanto o Espírito do Senhor estava sobre ele, foi obediente e conduziu com determinação e coragem o seu povo nas batalhas. Porém, depois da vitória final, recusou o convite das tribos para reinar sobre elas, pois isto, certamente, lhe traria muito trabalho e preocupação. Gideão, no entanto, fez questão de reivindicar e de receber, sem constrangimentos, os privilégios do cargo: muito ouro, riquezas, muitas roupas finíssimas de púrpura caríssima e muitas mulheres. No tempo dos juízes em Israel, assim como hoje na Barca de Cristo, líderes confundem, intencionalmente, autoridade com poder, proferem discursos cínicos, amealham privilégios e honras incompatíveis com a condição de servos, entram na vinha, não como trabalhadores, mas como senhores, fazem de conta que não sabem que o Dono da vinha, o Deus Onisciente, tudo vê e tudo julga.

Abimeleque, filho de Gideão com uma concumbina, cobiçou o cargo recusado por Gideão e assassinou todos os seus irmãos para ocupar o posto do pai. Porém, Jotão, meio-irmão de Abimeleque, conseguiu escapar do morticínio e se opôs ao golpe de Abimeleque. Jotão discursou ao povo, desvelando o caráter de Abimeleque, através de uma fábula.

Jotão conta que as árvores decidiram escolher um rei para governar sobre todas elas. A fábula enfileira, pela ordem de importância na cultura de Israel, a oliveira, a figueira e a videira que, nesta mesma ordem, foram convidadas para reinar. Todas recusaram o convite. Nessa fábula, Jotão revela como um povo inconstante e uma Igreja distraída podem fazer escolhas erradas, que resultam em juízo divino e sofrimento. Ensina, também, como fazem mal ao povo de Deus, no Israel do Velho Testamento e na Barca de Cristo do Novo Testamento, aqueles que foram agraciados com dons do Espírito Santo e que deles fazem uso somente para o seu próprio deleite.

Fica claro no texto que a oliveira, a figueira e a videira estavam orgulhosas e plenamente realizadas com as suas características, com as suas posições, com os seus “dons” e com o “seu mundinho” particular e privado, onde tudo era embalado no prazer e na doçura. Estavam no monte e ali desejavam manter fincadas as suas tendas. “Pairar sobre as árvores” significava assumir o governo, descer para o vale, encontrar os pobres, os doentes, os famintos, os pecadores, os amargurados e sem esperança, os rejeitados e desprezados; as ovelhas feridas, sufocadas e sem rumo. Esse era o mundo real, que dava muito trabalho, que exigia desapego às honras, que gritava por amor e atenção, que sonhava com dias melhores. Fechando os olhos e os ouvidos para o clamor do vale, a oliveira, a figueira e a videira concluíram que, do jeito que estavam, podiam continuar, estava tudo muito bom e prazeroso. “Deixa como está…”

Nessa paisagem de satisfação particular e indiferença por parte das árvores mais capacitadas, surgiu o espinheiro como derradeira solução e que, ao receber o convite desesperado das árvores, prontamente, aboletou-se no cargo, para o qual era absolutamente inútil, improdutivo, ameaçador, pois não passava de um arbusto indesejado. No seu primeiro discurso cínico, o espinheiro ofereceu aos seus súditos o que não possuía, o que nunca poderia entregar: uma sombra, símbolo de descanso, de refrigério e de paz. A verdade é contundente: espinheiro não produz sombra! Produz espinhos!

Hoje, na Barca de Cristo, espinheiros ainda crescem, fazem escada no engano e na ingenuidade da Igreja distraída e sofredora e galgam a “ponte de comando”. Espinheiros que se plantam, indevidamente, na mesma fileira da oliveira, da figueira e da videira, apresentando monografias plagiadas para obterem seus títulos de Reverendo ou de Pastor e, assim, com artifícios mentirosos e desonestos, são habilitados para proclamar a Verdade absoluta e puríssima do Evangelho de Cristo e para ministrar os Sacramentos. Demonstram não confiar no Sopro inspirador do Espírito Santo de Deus, pois fazem sermões plagiados como se fossem frutos da sua meditação, da sua comunhão e da sua integral submissão. Não esperam o auxílio do Espírito Santo; ir à internet, ao Google, é muito mais prático e rápido. Depois, descem dos púlpitos e, com cinismo, se colocam à porta dos templos para receberem os cumprimentos que inflam a sua vaidade pecaminosa. Espinheiro não tem mesmo o que oferecer aos passageiros da Barca de Cristo. Espinheiro não produz sombra! Espinheiro produz incêndio destruidor! “Mas, se não, saia fogo de Abimeleque e consuma os cidadãos de Siquém…” (Juízes 9.20).

Abimeleque, o meio irmão de Jotão e espinheiro da fábula contada no texto de Juízes 9, experimentou o julgamento do Deus Santo que julga com retidão, que salva o Seu povo, que protege e fortalece a Sua Igreja, que guarda a Barca de Cristo no meio da tempestade: ”Porém certa mulher lançou uma pedra de moinho sobre a cabeça de Abimeleque e lhe quebrou o crânio.” (Juízes 9.53). Deus, no Seu tempo, remove os espinheiros que ferem e enganam os passageiros da Barca. No Seu tempo, também, desperta e santifica as oliveiras, as figueiras e as videiras para que ponham os seus dons a serviço do próximo. É assim que Deus faz; tudo como Lhe agrada; tudo no Seu tempo. Permanece a verdade: Espinheiro não produz sombra! Esta palavra não voltará vazia. Assim será, até que volte o Redentor! Amém. 

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