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Por que Jesus dormia?

 Mais uma bela reflexão do Presb. Marcos Vieira. Leia e permita que Deus conforte seu coração. www.abarcadecristo.wordpress.com/

“E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia.” (Mateus 8.24)


Imagino que, como eu, todos, ou quase todos aqueles que gostam de música popular brasileira concordam com os melhores adjetivos para destacar a beleza, o encantamento e a maviosidade da célebre “Canção da América”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Cada verso e todos os versos resumem no limite das palavras e, ao mesmo tempo, expandem, no infinito dos sentimentos e das emoções, o que significa ser ou ter um amigo verdadeiro. Na linguagem dos admiráveis compositores, tal como expressa na canção,“Amigo é coisa pra se guardar/ Debaixo de sete chaves/ Dentro do coração/ (…) Amigo é coisa pra se guardar/No lado esquerdo do peito…” Amigo é aquele que se liga a outro por laço de amizade, sentimento fiel de afeição e de ternura, simpatia e estima, compromisso e verdade, lealdade e respeito. Amigo verdadeiro e amizade sincera são marcas do cristão, são sinais da Barca de Cristo. Marcas e sinais tão excelentes, de tão grande valor, que não podem ser confundidos e nem sequer comparados com a ideia de cúmplice, mesmo sem limites, ou de cumplicidade, mesmo sem regras, tão presentes no “mar”, do lado de fora da Barca de Cristo, onde reside o mal.


Ser ou ter um amigo verdadeiro não é algo comum. Na minha adolescência, alguém que jurava ser meu amigo escorregava na contradição e, com um grito, me alertava: “amigos são todos eles como aves de arribação; se faz bom tempo vêm eles, se faz mal tempo eles vão.” A Bíblia Sagrada não deixa de nos advertir sobre a possibilidade de amigos que devem ser mantidos à distância, deixados de lado e, talvez, esquecidos. Textos do livro de Provérbios são realistas e duros quando nos avisam, por exemplo, que “As riquezas multiplicam os amigos; mas, ao pobre, o seu próprio amigo o deixa.” (Provérbios 19.4). Entretanto, no mesmo livro, o valor da amizade sincera e o braço de um amigo verdadeiro são bens preciosos e enaltecidos; com mansidão somos levados a compreender que “Como o óleo e o perfume alegram o coração, assim o amigo encontra doçura no conselho cordial.” (Provérbios 27.9). Não é um verdadeiro amigo o que concorda sempre, o que aplaude todos os atos, mas sim aquele que, ao discordar, aborda com respeito, fala com brandura, sugere com discrição, aconselha com firmeza, porta-se com lealdade. Isto é ser amigo, isto é ser cristão. Por outro lado, o homem que usa a sua posição ou o seu cargo para reivindicar a concordância irrestrita com as suas ideias, palavras, atitudes e decisões, assume a pretensão de ser infalível, característica que somente Deus possui. Tal homem não procura um amigo; antes, está à cata de um cúmplice. Viverá e morrerá sozinho, ainda que não se dê conta dessa penosa realidade; não existe cumplicidade na morte. É fato, também, que a Barca de Cristo não acolhe cúmplices; acolhe amigos.


É terrível, mas se tornou comum e aceitável a presença na Barca de Cristo de líderes que, investidos de uma autoridade outorgada, transitória, efêmera, esqueceram da sua real condição diante do Senhor e Dono da Barca e, então, não se constrangem ao impor a sua vontade sobre os demais, como se estes fossem seus serviçais, como se fossem tolos. Bem fariam à Barca de Cristo e a si mesmos, se imitassem o exemplo do verdadeiro Senhor que, com inefável graça e misericórdia, solenemente declarou aos Seus: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho vos chamado amigos, porque tudo quanto recebi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”(João 15.15). Todos nós, homens e mulheres, milhares de milhares, passageiros da Barca de Cristo rumo ao “Eldorado” de Deus, fomos feitos amigos do Bendito Filho de Deus. Aleluia!


Naquele dia, naquele mar, naquela barca varrida pelas ondas, os discípulos unidos pelo medo da morte correram para Jesus, que dormia. Por que Jesus dormia num momento, aparentemente, tão inadequado? Os textos sagrados não respondem a esta pergunta de maneira clara e direta, porém, os contextos nos dão o suficiente para a nossa reflexão. Penso eu que o Senhor Jesus dormia porque a pequena e embrionária Igreja da barca, acossada pelos solavancos do mar, tinha muitas lições a tirar daquele período de sono. Ela precisava aprender por si mesma, a percorrer os caminhos da confiança e da fé no Filho de Deus, caminhos abertos naquelas circunstâncias, enquanto Ele dormia; caminhos que a levariam a fazer descobertas de valor eterno sobre o seu rumo, sobre o seu destino e sobre o seu triunfo. As descobertas daquele dia, no meio da provação e da agonia, continuam hoje a encorajar, animar, inspirar e sustentar, sem interrupção, os viajantes da Barca de Cristo e assim será sempre, até que volte o Redentor.


Penso, também, que Jesus dormia porque os discípulos, assaltados pelas dúvidas, vivenciando um enganoso “salve-se quem puder”, precisavam descobrir sozinhos que tipo de amigo era aquele que eles seguiam, obedeciam e que, estranhamente, parecia ignorar os perigos e conseguia dormir na iminência da morte. Naquela hora, e sempre seria assim, a pequena Igreja da barca dependia de um amigo excelente, de um amigo Salvador e o encontrou dormindo. Ali estava o único amigo suficiente, zeloso de todos os cuidados e que, mesmo dormindo, não deixou de guardá-la e protegê-la. A presença de Jesus, ainda que Ele esteja dormindo, não é passiva, não é omissa; é abençoadora. Que maravilhosa descoberta!


O sono de Jesus aconteceu com propósitos divinos. Mas a pequena Igreja da barca descobriu, também, que esse verdadeiro amigo jamais seria um cúmplice dos seus erros e que, ao contrário, nunca deixaria de confrontá-la nas suas falhas e nos seus pecados, que nunca deixaria de corrigi-la, de exortá-la, de admoestá-la e que agiria sempre assim porque jamais deixaria de amá-la. Antes de sossegar os ventos e acalmar as ondas, no meio do pavor, Jesus confrontou os seus amigos: “Por que sois tímidos, homens de pequena fé?” (Mateus 8.26). A bonança não é o compromisso prioritário do Senhor e Dono da Barca; antes de tudo, Ele tem por meta instruí-la e ajudá-la no desenvolvimento da sua salvação, da sua purificação e da sua santificação, “ …sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Hebreus 12.14)
Ouso pensar que Jesus gostaria de não ter sido acordado e de ter constatado, após o seu sono, que a Sua presença adormecida tinha sido o bastante para produzir nos Seus discípulos a calma e a certeza de que “Com Cristo na barca tudo vai muito bem e passa otemporal.” Entretanto, é mais humano pensar que, enquanto Jesus dormia, os discípulos, ainda muito limitados e distantes do Pentecostes, tinham a sua fé e o seu conhecimento de Deus, didaticamente postos à prova, não para que fossem reprovados, mas para que fossem instruídos, fortalecidos e habilitados espiritualmente. Nesse processo crescente e sofrido, compreenderiam a necessidade de crer e de desfrutar da presença espiritual e misteriosa de Jesus, após a Sua ressurreição e assunção ao céu. A presença física do Filho de Deus seria de curta duração e o seu sono daquela hora apontava para a proximidade de uma presença invisível, porém continuamente ativa. Muito em breve, e de forma inabalável, esses mesmos discípulos viriam a saber que, desde a eternidade, nada seria capaz de deter a História da Salvação e que, portanto, naquele dia, teria sido impossível o naufrágio da barca que transportava o Verbo Encarnado. Isto é conhecimento.
Jesus dormia, também, porque a pequena Igreja da barca precisava aprender a confiar incondicionalmente na Sua amizade e, assim, afastar-se da tentação de pensar que Ele, valendo-Se do Seu poder, poderia decidir salvar-Se sozinho e abandonar os Seus amigos à própria sorte. Isto é fé.


A Sua amizade inexplicável recebeu o selo definitivo quando Ele afirmou a respeito de Si mesmo que “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.” (João 15.13). O perfeito amigo continua na Barca junto conosco, dormindo ou acordado, não importa. Assim será sempre. Até que volte o Redentor.


Enquanto Jesus dormia e porque Ele dormia, descobertas e lições extraordinárias foram desenroladas diante dos olhos perplexos dos discípulos, como num filme debaixo de um céu de tempestade. Olhando para aquele incomparável amigo, eles alcançaram um novo e imenso significado para uma afirmativa, até então surpreendente, do Velho Testamento:“…mas há amigo mais chegado do que um irmão”(Provérbios 18.24). É Jesus esse amigo. Não fique longe Dele. Ele é mesmo o amigo que vale a pena “…guardar no lado esquerdo do peito, dentro do coração…” Amém.
 

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