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Eis o mar, eis a barca

 Recomendamos este artigo do nosso irmão Presb. Marcos Vieira. Novas mensagens no nosso site ou no blog "http://abarcadecristo.wordpress.com/"

“Entretanto, o barco já estava longe, a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário.” (Mateus 14:24)

Encantei-me com o texto de “O homem que não queria ser Papa” (Andreas Englisch, Universo dos Livros, primeira edição, 2013). A lastimar, apenas, que os editores tenham sido tão desrespeitosos com a obra, com o autor, com os leitores e, principalmente, com a língua-pátria, ao disponibilizar nas livrarias essa primeira edição com um amontoado de erros em quase todas as páginas, diminuindo grandemente o prazer da leitura. Trata-se de uma descrição minuciosa das batalhas heroicas de Bento XVI desde a sua eleição, das adversidades enfrentadas, algumas com galhardia e outras tantas sofridas com silêncio e passividade e, por fim, da sua renúncia que surpreendeu o mundo. Eis o homem admirável que, com total desapego ao posto mais elevado da sua Igreja, com todos os privilégios e honrarias consequentes, abdicou sem alarde, sem acusações, sem culpas e sem holofotes. Recolheu-se à vida simples, ao quase anonimato, procurou e encontrou a paz que parecia desejar mais que tudo. Para mim, então, ficou menos difícil compreender a permanente apreensão, a inarredável tristeza e a impenetrável solidão quase sempre presentes no rosto do grande teólogo. A mim, parecia que os olhos do dedicado “Capitão” estavam continuamente refletindo o “mar” ameaçador, no qual, sob o seu comando, navegava a “Barca de Pedro”, como ele denominou a sua amada Igreja.

Eis o “mar”, onde navega, também, aquela que escolhi chamar de “A Barca de Cristo”, a Igreja Evangélica, herdeira ou não da Reforma protestante do século XVI, quase sempre distraída e, por isto mesmo, amedrontada, insegura e sofrida, com os olhos postos sobre a “massa de água” sempre ameaçadora a cercar os seus movimentos. Eis o “mar”, visto aqui como se pode conhecê-lo em várias circunstâncias narradas na Bíblia Sagrada, ou seja, como metáfora de um mundo tenebroso, confortavelmente acomodado no “colo” do maligno, apontando sempre e impiedosamente para a opressão, para o sofrimento, para a destruição, para a morte e para o pecado. Deixando de lado a condição metafórica, o mar encapelado, barulhento, incontrolável, apavorante, descrito no livro do Profeta Jonas, é presença constante em tantos outros livros da infalível e Santa Palavra de Deus. No encantador livro dos Salmos, o “rugir dos mares”, o “ruído das ondas”, a “fúria das águas”, são expressões que simbolizam a experiência humana nas mais variadas formas de enfrentamento de situações adversas, severas e opressoras. Destas expressões, resulta uma outra,também significativamente reveladora: “o tumulto das gentes.” Os filhos de Coré, levitas, cantores de salmos tão grandiosos, sintetizam essa verdade com um grito angustiante: “… todas as Tuas ondas e vagas têm passado sobre mim.” (Salmos 42:7). Nos majestosos textos apocalípticos da Santa Palavra de Deus, os reinos que encarnam a impiedade, o mal em todas as suas manifestações têm correntemente a forma de animais que sobem do mar. No Apocalípse de Isaías, o fim de todos os males e a realização da esperança escatológica tornar-se-ão realidades “Naquele dia em que o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar.” (Isaías 27:1). Eis o “mar”, esse é o “mar” que, com os seus “monstros”, simboliza todas as forças do mal contra a ”Barca de Cristo” desejando tragá-La, empenhando-se por fazê-La naufragar. E assim será, sem tréguas, até que volte o Redentor!

EIS A“BARCA”, a “Barca de Cristo”, lançada nesse “mar” furioso há cerca de dois mil anos para projetar continuadamente a sombra da cruz, para contar ininterruptamente a História da Salvação, para proporcionar aos filhos de Deus momentos de alegria espiritual, de exultação, de envolvimento no mistério do culto e no compartilhamento da presença real, confortadora e santificadora de Deus o Pai, que está acima de nós, de Deus o Filho, que está diante de nós e de Deus o Espírito Santo, que está em nós. Assim se concretiza a suprema realização dos salvos dentro da “Barca de Cristo”, apesar do “mar” no qual Ela navega sob ameaça e estremecimentos constantes. Deixemos de lado o “mar” e as forças do mal que dele procedem e que, de fora para dentro, hostilizam a “Barca de Cristo.” No tempo de Deus, na plenitude da hora, no minuto perfeito, o Senhor que reina soberano e absoluto há de levantar a Sua voz e todo o mal será aniquilado. No passado foi assim, o salmista viu que “Tudo quanto aprouve ao Senhor, Ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos.” (Salmos 135:6). Ele fez, Ele faz e Ele sempre fará. Aleluia! Olhemos agora para dentro da “Barca”. Eis a barca que um dia, varrida pelas ondas e ameaçada por uma aterradora tempestade, parecia que jamais chegaria ao seu destino. Dentro dela os discípulos de Jesus,completamente apavorados, lutavam como podiam. A pequeníssima e embrionária Igreja reunida dentro daquela igualmente pequena e insignificante embarcação não sabia, ainda, que naquele lugar, naquela hora e naquelas circunstâncias, revelava-se de maneira milagrosa e profética como seria, em todos os tempos, o difícil avanço da Igreja, a difícil travessia da “Barca de Cristo”. Tem sido assim nesses dois mil anos de “navegação” sempre desafiadora. Esses fatos estão narrados nos Evangelhos Segundo Mateus 8:23 a 27, Segundo Marcos 4:35 a 41 e Segundo Lucas 8:22 a 25.

Continuemos olhando para dentro da “Barca”. Aqueles apavorados discípulos de olhos estatelados, perdidos no desamparo do medo, fixavam a sua melhor atenção no mar; provavelmente, também, seguravam as cordas, empunhavam os remos, olhavam as velas e nesse vai-e-vem no corredor da morte, encontraram Jesus… dormindo! Parece que não ocorreu a nenhum deles procurar resposta, ou respostas, para aquela que me parece ser a mais relevante e a mais significativa de todas as questões daquele momento: afinal, por que Jesus dormia?

Hoje, cerca de dois mil anos depois, junto com milhares de irmãos e irmãs dentro da “Barca de Cristo”, que continua a sua travessia, às vezes penso que estou “vendo” o Senhor, o dono da “Barca”, dormindo mais uma vez. Ele parece dormir, enquanto muitos líderes demonstram o desejo de ser maiores e mais importantes do que Ele. Homens vazios de genuíno amor pelo rebanho de Cristo e envaidecidos dos seus talentos, que procuram e lutam pelos melhores lugares na “Barca”. Homens que armam estratégias de interesse pessoal para alcançar os postos mais elevados e para desfrutar dos maiores privilégios e gozar das maiores honrarias. Homens que agem como se somente eles, entre todos os que estão dentro da “Barca”, fossem capazes de fazer o que de melhor e de mais relevante seja possível aos homens e mulheres fazerem em prol do Reino de Deus. Homens que dão a entender que acham que, sem a sua inteligência, sem a sua esperteza, sem o seu brilhantismo pessoal miseravelmente humano, sem as suas armações, a “Barca de Cristo” ficaria à deriva. Homens que ousam fazer de conta que não sabem que os dons do Espírito Santo foram, e continuam sendo, bênçãos concedidas à Igreja e não somente a alguns privilegiados. Deus na Sua economia e dentro da Sua “Barca”, não contempla “preferidos”. Parece-me que o SENHOR dorme enquanto correm e lutam em vão os homens que se mostram capazes de fazer qualquer coisa para chegar na “ponte de comando”. Muito bem fariam à Igreja, à “Barca de Cristo”, e a si mesmos, se copiassem o exemplo de humildade, de dignidade, de honra, de verdade, de amor verdadeiro e de desapego aos primeiros lugares, demonstrado por Bento XVI. A “Barca de Cristo” aportará feliz e realizada no “Eldorado” de Deus, atracará com alegria e segurança no porto do “País das Maravilhas” do Santo de Israel, mas somente Jesus, o Senhor e o dono da “Barca”, e mais ninguém, absolutamente ninguém, poderá levá-La ao seu destino glorioso. Enquanto isto, é dever de todos os que foram resgatados do “mar” e colocados a salvo dentro da “Barca de Cristo” empenhar a sua vida para eliminar do interior da “Barca” tudo que não tenha o propósito de glorificar a Deus, de exaltar a Jesus Cristo, de alegrar o Espírito Santo, de honrar a Igreja, de promover a alegria, a paz e o crescimento espiritual dos redimidos. Até que volte o Redentor. Amém.

PS. Brevemente, se Deus, bendito seja o Seu Santo Nome, me ajudar e me defender, tentarei dar respostas à pergunta “Por que Jesus dormia?” 

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