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A gua Viva que caiu no agreste

Para quem gosta de uma boa história, leia as impressões de Susana Berbert, da última viagem missionária.

Dia doze de julho encontrei uma Aracajú diferente da maneira que a deixei há 5 meses atrás. A seca, antes visível no solo rachado e sofrido visto do alto, foi substituída pelo verde que cobria toda extensão enxergada por mim. A paisagem, outrora sem vida e sem cores, se apresentou úmida. Fui recebida com chuva. Com muita chuva.


Ao chegar em Campo do Brito fui apresentada a um local mais estruturado do que o pequeno povoado de Tomar do Geru que eu havia conhecido em janeiro. Mais estruturado, mas não menos cheio de necessidades. De ajuda, de olhares, de carinho... De amor. Nos dias que passei ali, conheci pessoas maravilhosas e revi queridos amigos. Formamos um grupo de aproximadamente 40 pessoas, cada um com sua singularidade imprescindível, eram todos essenciais para a realização das mais simples tarefa.


O sol surgia no céu muito cedo e o calor nordestino, no inverno, se mostrava um pouco tímido, mas ainda presente. Tomávamos café, tínhamos uma devocional e, então, nos dividíamos em dois grupos: um formado pelos responsáveis pela área da saúde e outro destinado ao evangelismo. O primeiro era composto por oito profissionais da área odontológica, um pediatra, uma nutricionista e um psicólogo. No segundo, havia palhaços e muitas pessoas dispostas a amar. Éramos recebidos com muito respeito, com muita gratidão. Sem ao menos nos conhecer, pessoas nos convidavam para entrarmos em suas casas, humildes, e nos tratavam como irmãos. Não tendo muito, ofereciam o que possuíam de melhor. Eu, registrando cada detalhe, observava as mais simples ações com os olhos, muitas vezes, cheios de lágrimas. Com os olhos cheios de empatia, cheios de carinho, cheios de ternura.

Algo me tocava naquele local. E não era apenas o cenário de pobreza nos bairros mais carentes, envoltos por paisagens montanhosas maravilhosas ao fundo. Os corações daquelas pessoas me tocavam. Os olhares me tocavam. Experimentei sensações intensas, alternadas em meu interior ora cheio de gratidão e esperança, ora completo de tristeza e de vazio. Vazio ao olhar a crueza da existência. A crueldade da existência... O valor, esquecido, daquelas existências. Conheci pessoas que não sabiam ler, mas falaram à minha alma. Falaram baixo, quase sussurrando, mas com a voz clara e doce, que preciso aprender a amar. Celina, com uma história sofrida, com uma história de luta, com uma história de solidão e com seu interior calejado, me fez crescer. Com suas palavras amáveis, com seu coração aberto após a desconfiança inicial ao me conhecer e com seu sorriso ao me reencontrar dias depois, fez com que eu visse um pouco da belo na tristeza, um pouco da felicidade em meio as lágrimas. Um pouco do favor imerecido do Pai. Tive um encontro, em cada pele tocada, com a vida em sua forma mais bruta. Em sua forma mais humana, em sua forma mais real, em sua forma mais sensível. Tão sensível que me arrebatava para o âmago daquela realidade abandonada e fazia com que eu firmasse meus pés naquele chão como se ele fosse meu. Meu de forma tal que finquei raízes, as minhas raízes. Tão profundas que, mesmo longe, fazem com que eu continue lá. Naquele lugar, naquele agreste, naquela sobriedade de dor e alegria que apresenta, a mim, a nudez da nossa condição humana.

Mirei tantos olhos sedentos. Tantos olhos que externavam sofrimento. Não consigo imaginar quantos dos abraços que dei foram precedidos por faces baixas. Por mãos trêmulas. Por uma pobreza de alma que supera qualquer carência física de uma seca severa. Por uma escassez de vida que é mais profunda do que qualquer solo rachado no meio, esquecido, do sertão.

Aprendi, mais uma vez, a encher a minha existência com o simples. A absorver a dor do que está ao meu lado e me lembrar da Redenção. A me despir de concepções, de medos, de julgos e sentir a interioridade daquele que me é desconhecido. A amar ao desconhecido. No hospital, aprendi a sarar meu espírito. Olhava para cada pessoa que esperava por um atendimento e pensava o que realmente precisava ser curado ali. São tantas tristezas interiorizadas, tantos traumas, tantas violências... Tanto sofrimento. Aprendi, naquela cidade lembrada por ninguém, a viver a mensagem singela do evangelho. O caminhar humano de Cristo, sua doação constante e os seus braços destinados aos excluídos. Fui lembrada incessantemente a ser sensível às manifestações do Pai, a ser sensível ao som da Graça.

... Som que é lindo como os acordes vindos da pequena orquestra que ouvíamos, pela noite, ao voltar da igreja. Som que é lindo como o barulho das pessoas na feira. Como a carroça que passava entre os paralelepípedos. Como o jeitinho do sotaque, como os risos das crianças, como o cheiro da farinha. É lindo como o barulho da cigarra que eu ouvia na rua. Como o rosto de cada nordestino que eu conheci. Lindo como a beleza palpável de seus corações. Lindo como o seu Paulo, senhor sozinho no mundo e com uma gentileza que me fez sorrir sem jeito, que me ensinou não ser preciso ter uma família para ser amado. Belo como o carinho simples de Paulínia e José que, após 47 anos de casamento e 9 filhos, mostraram-me que o amor é sereno. Som da Graça que enche nossa vida e que é gostoso como a melhor água de coco do mundo, dada a mim pelo seu Manuel Messias porque eu o fiz rir, logo pela manhã, dizendo que ele estava bonito na fotografia que eu havia tirado. Som que é compassado e alegre como a música que sai da sanfona e que arrasta nossos pés. Som que é ouvido pela alma, que é ouvido pelo “me dê aqui um cheiro”, pelo acolhimento que só o nordestino sabe oferecer. Pelo abraço quente da Dona Rosinha e pela serenidade, branda como o azul do céu de outono, da Dona Zefinha. Som que ecoa, ainda hoje, em mim. Que sai do rincões esquecidos daquela terra e me perpassa, me atrai, me envolve e me transforma. Som que é lindo, absolutamente lindo, como o barulho da chuva que caiu sobre aquela terra sedenta. Que caiu firme, intensa e abundante. Que caiu derramando vida, derramando consolação. Que caiu derramando a própria Graça... Que caiu e que me encheu com rios de água viva. 

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